sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O parto como eu vejo... ou como eu o desejo?

Um estudo realizado em 2002, buscou explicações para a elevação das taxas de cesárea em nosso país, pelo SUS. Aqui estão as considerações finais.


" Explicações para a elevação das taxas de cesáreas em nosso país, giraram em torno da forma como se organizou a assistência obstétrica, a formação dos profissionais e a demanda de cesarianas por parte das parturientes, atribuídas a fatores sócio-culturais. Na população estudada, essa demanda esteve associada principalmente ao desejo de laqueadura tubária. A qualidade da atenção, particularmente na sala de pré-parto, também repercutiu sobre o desejo de ter uma cesárea, sendo que mais que o medo da dor do parto, as mulheres temiam as reações dos profissionais às suas queixas. O temor de inadequação futura para a prática de sua sexualidade não foi referido pelas parturientes em pauta. Essas mulheres preferiam o parto vaginal e, ao contrário, temiam a cesárea, pelos riscos a ela associados. Este estudo, portanto, redireciona o foco para a forma como se organizou a assistência obstétrica em nosso sistema de saúde, assim como para a formação dos profissionais: aquela é uma assistência iníqua e ineqüitativa, pois nem ao menos garante vaga para cidadãos nascentes; quando têm acesso à vaga, muitas vezes as parturientes são submetidas à assistência de pouca qualidade, seja em seu componente técnico, seja no tocante à relação interpessoal.
Quanto à formação dos profissionais, esta ocorre no bojo desse sistema de saúde, em meio a uma cultura médica que transformou o parto e o nascimento, de eventos fisiológicos, em patológicos, e que privilegia o uso de equipamentos sofisticados à adoção das tecnologias apropriadas à assistência perinatal. Nosso estudo deu voz às mulheres, quando ainda em seu período gestacional, quanto às suas expectativas – e finaliza por expor o seu desejo: de ser acolhida, poder demandar o serviço, poder fazer perguntas e obter respostas – isso durante a gestação, no acompanhamento pré-natal; obter a vaga; ser respeitada, ter espaço para sua dor e vulnerabilidade, poder gritar se o desejar; ter assistência de boa qualidade, com acesso disponível à tecnologia quando necessária; ser reconhecida como alguém que tem vontades, desejos e necessidades e, finalmente, poder compartilhar com os profissionais os temores, as alegrias e os prazeres da gestação e do parto. Se esse é o desejo das mulheres, ele difere, e muito, de uma cesárea... e cabe a nós, profissionais de saúde, criar as oportunidades de escuta dessas e outras demandas e expectativas das mulheres em nossos serviços de saúde."

Fonte: Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 18(5):1303-1311, set-out, 2002

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