quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O médico e a Doula


Entrevista com o Dr. Adailton Salvatore Meira Médico Homeopata, Ginecologista e Obstetra Campinas, SP



Nestes 18 anos de obstetrícia, a observação dos partos e das pessoas que participam deles me fizeram concluir sobre a importância da figura da doula, ou, algumas vezes, doulo. Por isso organizei um curso de formação no ano de 2001, talvez o primeiro curso oficial de formação de doula no Brasil, para ajudar, motivar, difundir, e capacitar mulheres a ajudarem outras mulheres no parto.
A motivação básica que me levou a organizar este curso foi a observação dos resultados dos partos em que houve o trabalho associado do médico e de um acompanhante de parto. Este acompanhante nem sempre era alguém profissional. Às vezes era uma amiga, a mãe, a família (nos casos de mães sozinhas), a preparadora para o parto, a professora de yoga, e muitas vezes meu irmão Dr. Luiz Meira, que me auxiliou em vários partos.
Esta figura sempre existiu na história da humanidade. O parto sempre foi uma ocasião que a parturiente necessitou de ajuda. É incomum que uma mulher faça o seu próprio parto, embora existam alguns exemplos.
Então a primeira questão é falarmos sobre o PAPEL da doula, para que possamos defini-la. Fundamentalmente é alguém que vai estar ao lado da parturiente, sem o compromisso de um oferecer auxilio médico, ou obstétrico. Um auxílio biológico, isso sim. Um apoio afetivo, emocional, segurança. É alguém que vai estar junto para o que der e vier. Mas este papel não está totalmente formatado, por ser uma atuação relativamente recente, e sua entrada na equipe de parto mais recente ainda.
Esta relação com a parturiente vai se fundamentar em 2 vertentes básicas, dois meios de comunicação: verbal e manual. Provavelmente o segundo seja mais importante, porém não podemos diminuir o valor do primeiro. Acho que se complementam. Por isso no curso foram oferecidas várias possibilidades práticas: massagens, toques, trocas, pontos de acupuntura, reflexologia, etc. A doula, na minha opinião, deve saber como ajudar uma parturiente a lidar com a dor e a relaxar.

A evolução da assistência ao parto e no controle da dor

Desde a década de 30 que o Dr. Read ressaltou que o MEDO (desconhecimento) leva à TENSÃO, esta por sua vez leva a DOR que aumenta o medo, e assim perpetua-se o ciclo. A doula vem para aumentar a segurança, quase como uma mãe, trazer segurança e quebrar este ciclo.
Na década de 50 ressaltaram-se no mundo as técnicas de respiração para diminuir a dor (antes da invenção da analgesia de parto), pela prática de um médico francês (Lamaze), que se popularizou com a respiração conhecida como cachorrinho. Ele simplesmente observou que os animais faziam assim no parto, mudavam seu padrão de respiração, que por coincidência é a mesma que se observa na relação sexual...
Na década de 60 Leboyer brindou o mundo com sua poesia e fotos maravilhosas, algumas chocantes que diziam mais que muitas palavras: o bebê também era um SER HUMANO e que merecia respeito, silêncio, carinho e não palmadas para chorar. O bebê sente dor!
Na década de 70/ 80 Michel Odent na França abriu o caminho no tocante ao trabalho associado com as parteiras e uso de água em sala de parto, lançando um livro revolucionário que está sendo traduzido para o português: O RENASCIMENTO DO PARTO.
Creio que mais recentemente tomamos consciência que o excesso de tecnicismo deixou uma lacuna, um espaço vazio, que agora está sendo preenchido pelo trabalho das doulas, que é a atenção sutil ao parto, assistência à parturiente e não a uma barriga ou útero que se contrai.
Precisamos tomar consciência que estamos abrindo um caminho, como bandeirantes, e que isto vai ser custoso. Vai ser aberta uma picada no facão. Vamos gerar uma nova consciência, vamos deixar um rastro com o nosso proceder.
Na verdade os maiores beneficiados serão os casais grávidos que vão dar à luz de uma maneira mais assistida.

Doula como atividade profissional

Existem muitas questões envolvendo o surgimento desta nova função, que é uma atividade profissional, visto existir uma questão terapêutica envolvida, e que a doula, vai deixar sua casa, se locomover, e ficar até 15 ou mais horas trabalhando de uma maneira desgastante para ajudar sua cliente. É um serviço.
O nome DOULA vem do grego que quer dizer "serva", ou a que assiste. Então doula é assistente. Vai ter um vínculo com sua cliente. Ela vai escolher e "contratar" seus serviços. Deve, portanto estar DISPONÍVEL, mesmo que seja de noite, e deve estar LOCALIZÁVEL, com celular ou qualquer outro meio. Vai abrir mão de atividades familiares, pois o parto não tem data nem hora. Acho que futuramente os hospitais vão ter doulas contratadas, para melhorar a qualidade do atendimento em geral.
O vínculo precisa começar na GESTAÇÃO, pois é baseado em uma relação de entrega, de confiança, de fazer os gostos, que devem ser discutidos com antecedência. Então a doula tem que estar preparada para oferecer elementos que vão ajudar esta grávida a se preparar para o grande dia, o dia em que vai dar à luz. Costuma-se comparar com o escalar de uma montanha. Tem que haver treinamento, mas nada vai ser como o grande dia. Somente prenúncios. Vai ter que ensinar a relaxar, a respirar, a se posicionar, a como se relacionar com o sistema de atenção obstétrica, a como "brigar" para que o parto saia da maneira que ela quer... e vai ter que respeitar os gostos e desejos da grávida, mesmo que esta queira uma cesária....
Não creio que para ajudar uma parturiente a doula precise participar e assistir muitos partos. Na verdade o parto não é o objeto de atenção da doula, mas a parturiente. Por isso não vamos ter "estágio" de partos, mas estágio do que fazer na prática, e fazer várias vezes até aprender. Na verdade a preocupação da doula, não é se o parto vai acontecer normal ou cesária, ou como vai nascer o bebê, mas como a gestante vai passar por tudo isto, como vai lidar com o parto que não vai sair do jeito que ela gostaria, como se adaptar aos diferentes sistemas de atenção obstétrica, privados e públicos, com diferentes níveis de permissão.
Em um futuro bem próximo este momento vai entrar para a historia da assistência ao parto como o período que a parturiente e a grávida receberam reconhecimento de suas reais necessidades, emocionais, físicas e de segurança e de afeto.

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