sábado, 19 de novembro de 2011

Matéria: A solidão durante a gravidez solo


Flávia Werlang explica porque a solidão de mãe é mais aparente

Um dia eu li este trecho no livro “O Labirinto da Solidão”, de Octavio Paz: “Todos os homens, em algum momento da vida, se sentem sós. E mais: todos os homens estão sós. Viver é nos separar do que fomos para nos internar no que vamos ser, futuro estranho sempre (…) Unido ao mundo que o rodeia, o feto é vida pura e em bruto, fluir ignorante de si mesmo. Ao nascer, rompemos os laços que nos unem à vida que vivemos no útero, onde não há pausa entre desejo e satisfação. Viver se expressa como separação e ruptura, desamparo, entrada num ambiente hostil e estranho. À medida que crescemos, essa primitiva sensação se torna sentimento de solidão (…) Se tudo (consciência de si, tempo, razão, costumes, hábitos) tende a fazer de nós os expulsos da vida, tudo também nos empuxa a voltar, a descender ao seio em que fomos amamentados.”.

Durante a gestação solo eu senti momentos de intensa solidão. Eu pensava como poderia estar tão só se, naquele momento, teoricamente, era o que eu estava mais acompanhada, pois carregava um serzinho dentro de mim. Desde que o exame de farmácia tinha dado positivo parecia que aquele sentimento batia mais forte à minha porta. “Ou será que o fato de sentir por dois torna tudo mais aparente? Não sei. A verdade é que as alegrias são mais felizes e as dores são rascantes”, eu pensava.

A solidão de uma mãe solteira é mais aparente porque enquanto as outras gestantes estão com seus companheiros na sala de espera do obstetra ou no aguardo para fazer exames, nós passamos estas fases e outras tantas que culturalmente deveriam ser compartilhadas sozinhas. Nestes momentos, eu realizava um tetê-a-tetê mental com meu bebê para diminuir a sensação de abandono.
Outra armadilha para driblar aquele sentimento era abrir as caixas onde guardava o enxoval, ficava mexendo nas roupinhas, revia as ultras e sonhava com meu bebê. Se ela mexia, sentia tudo o que eu sentia, se alimentava de tudo que eu comia e absorvia o O2 que eu respirava, então eu era, naquele momento, a pessoa mais importante para alguém, ou melhor, eu era capaz de gerar vida. Eu já não estava sozinha!

Sim, eu sentia alguém para conversar, senti muito a falta de amigos, muitos se afastaram, pois eu não era mais uma companhia para a night – enjoada e com um barrigão de melancia – e nem era bem quista entre os casais da high society – devo ser má influência ou não devem saber em que lugar da mesa pôr a solteira de barrigão com pai de nome não revelado. Não, infelizmente não é o Mick Jagger. É porque ele é desconhecido, não tem onde cair morto e ainda me deu um pé na bunda após a gravidez mesmo.

Superando a Solidão

Valeu de tudo. Desde mapa astral – Obrigada Barbara Abramo! Terapia. Contato com as amigas do Rio que ainda existiam on line. Mas faltava mesmo alguém que falasse sobre os assuntos que eu queria discutir: registrar com o nome do pai ou não; chamá-lo para o parto?; se ele quiser, aceitar fazer o DNA?; se eu quiser criar sozinha e não registrar, como será que vai ser, será que minha filha vai me cobrar pó isso?. Queria conversar com mães solteiras que já haviam passado por esta situação. Procurei livros,  procurei na internet, mas o que achei na internet era tudo muito superficial. Assim que minha filha, Luna, nasceu e passou o perrengue dos primeiros meses (de adaptação, cólicas, etc), resolvi criar o blog Grávida Solteira para reunir mães solo na mesma situação que eu e forma, assim, uma grande rede de apoio.

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