terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Brasil deve modificar cultura de assistência ao parto


ENSP, publicada em 26/12/2011
Isabela Schincariol

O Inquérito Nacional sobre Parto e Nascimento, coordenado pela ENSP/Fiocruz, busca conhecer os determinantes, a magnitude e os efeitos da cesariana desnecessária em puérperas e recém-nascidos brasileiros, bem como descrever a motivação das mulheres para a opção pelo tipo de parto e as complicações médicas durante o período do puerpério. A pesquisa, iniciada em fevereiro de 2011 e coordenada pela pesquisadora da Escola Maria do Carmo Leal, pretende ouvir 24 mil puérperas em todo o país. Entre os resultados observados até o momento está a melhora na saúde das crianças brasileiras. Como ponto negativo, o estudo observa os altos índices de óbito no momento do parto. "No Brasil, as mulheres são medicalizadas para ter seu trabalho de parto acelerado. Temos que devolver a elas a possibilidade de parir no ritmo do seu corpo e da sua emoção", admite Maria do Carmo Leal.

A coordenadora lembra, durante apresentação da pesquisa no painel Parto cesáreo e suas consequências para puérperas e recém-nascidos, realizado no VIII Congresso Brasileiro de Epidemiologia, em São Paulo, em novembro de 2011, que a saúde das crianças tem melhorado substantivamente no País. De acordo com ela, ao tomar o indicador de mortalidade infantil como síntese da saúde das crianças, pode-se observar que há um decréscimo importante nessa situação, e isso se deu porque houve melhorias na qualidade de vida da população nos últimos 20, 30 anos.

"Essas melhorias têm a ver com o aumento da urbanização, do saneamento básico. Além disso, as mulheres começaram a estudar mais, tivemos mudanças nas relações familiares e uma valorização da mulher. É importante lembrar que tivemos uma diminuição da fecundidade e criamos um Sistema Único de Saúde nos anos 1980 que vem dando um foco especial à atenção primária em saúde - e que vem se mostrando bastante impactante na saúde das crianças e está diretamente relacionada com a queda da mortalidade infantil", lembrou a pesquisadora do Departamento de Epidemiologia da ENSP.

Segundo Maria do Carmo Leal, por outro lado, na medida em que a mortalidade infantil diminui, há uma grande concentração de óbitos no momento do parto. "Temos a mortalidade materna e a mortalidade perionatal, que é o somatório dos óbitos fetais tardios - aqueles que quase completaram seu ciclo de vida, mas nascem mortos, mais aqueles que morrem na primeira semana de vida. Esse conjunto, chamado de mortalidade perionatal, diminuiu um pouco, mas é extremamente elevado no País. Precisamos melhorar tanto a forma de atendimento no pré-natal - que tem cobertura universal, mas que tem problema de qualidade - quanto de atendimento no parto, que também tem cobertura universal para ser hospitalar, mas tem imensos débitos na qualidade da atenção".

As alternativas, segundo a palestrante, consistem em melhorar a qualidade assistencial pré-natal, em particular da assistência ao parto. Ela aponta que "se não modificarmos isso, teremos problemas com um forte indicador de saúde das mulheres, que pode ser observado pela mortalidade materna. O Brasil tem índices alarmantes de mortalidade materna. É um direito das mulheres ter seus filhos sem perder sua vida e, por conta disso, temos que cuidar da atenção ao pré-natal e da atenção ao parto".

Maria do Carmo comentou, ainda, alguns obstáculos da assistência obstétrica no Brasil, que, em sua opinião, é extremamente medicalizada e possui um número excessivo de cesáreas, que correspondem a mais da metade dos partos no país. Já em relação às mulheres que possuem melhor condição social e no setor privado, esse número ultrapassa os 90%. "Esse dado é absurdo, mas o problema não é só com a cesárea. Também temos problemas com o parto dito 'normal'. Na verdade, não se trata de um parto normal, mas sim um parto vaginal. Isso porque o normal é aquele em que se processa no ritmo do corpo da mulher, sem intervenção, deixando o parto evoluir de acordo com a necessidade de processamento da criança. Quase não temos isso no nosso país. As mulheres normalmente são aceleradas em seu trabalho de parto. Isso aumenta a dor, o desconforto e traz complicações. Queremos devolver às nossas mulheres a possibilidade de parir no ritmo do corpo e da emoção. Trata-se de um grande desafio e temos que modificar a cultura do atendimento ao parto, além da cultura profissional", conclui Maria do Carmo.

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