domingo, 11 de dezembro de 2011

O parto roubado e a Rede Cegonha - por Claudia Rodrigues



O ano chega ao final com uma promessa política promissora na humanização da saúde. Na última segunda-feira a presidenta Dilma Rousseff lançou em Belo Horizonte a Rede Cegonha, um conjunto de medidas que pretende garantir a todas as brasileiras, via SUS, atendimento seguro e humanizado da fecundação aos dois anos do bebê.
A previsão é de que R$ 9,397 bilhões sejam investidos no programa até 2014. É claro que parte desse montante vai para o maquinário, exames, ambulâncias, os vale-táxis e vale-ônibus, resta saber se o governo vai dar conta do maior desafio, que é transformar uma cultura violenta e tecnocrática de atendimento ao parto, nascimento e cuidados com o bebê em uma cultura de humanização e respeito aos corpos da mulher e do bebê.
Essa cultura violenta está tão arraigada na sociedade, que as mulheres de maneira geral não conseguem pensar, refletir e exigir certos direitos perdidos ao longo da história tecnocrática de atendimento ao parto. A praxe de atendimento ao parto vinda da assistência é repleta de incivilidades e infrações, desumanidades e abusos. A realidade é que os obstetras saem das universidades com a orientação de praticar episiotomia de rotina (corte no períneo), assistem partos sentados ou em pé confortavelmente enquanto a mulher é obrigada a ficar deitada numa maca com as pernas presas para o alto, o que dificulta a expulsão do bebê. Os profissionais da obstetrícia são erroneamente doutrinados a esperar não mais do que 8 horas para que a dilatação do colo uterino ocorra, o que acaba levando-os a utilizar uma manobra arcaica, o kristeller (pressão sobre o ventre da mulher) entre outros aceleradores do parto desnecessários e sabidamente prejudiciais diante de evoluções naturais, em processos normais de parto, que podem ser demorados sem que haja qualquer comprometimento da saúde da mãe do bebê. Eles acreditam piamente que estão fazendo o que deve ser feito, estudaram para isso, para prestar uma assistência tecnicista e já há alguns anos sem base em evidências.
A RAMA, Rede de Apoio a Maternidade Ativa – apoiada pela Rehuna, Rede de Humanização do Nascimento e várias outras redes e ONGs feministas, além de blogs e pessoas físicas que trabalham em prol dos direitos das mulheres-, elaborou uma Moção especialmente voltada ao atendimento do parto e nascimento. A Moção foi encaminhada à Rede Cegonha.
Essas redes são feitas de gente que também estudou para isso, mas sob outro paradigma e sob as mais recentes evidências. Se o SUS via Rede Cegonha pretende humanizar o atendimento ao parto, ao nascimento e aos primeiros dois anos das crianças, vai precisar abrir os olhos e apurar os ouvidos para os poucos obstetras que praticam o atendimento humanizado, parteiras, enfermeiras obstetras, doulas, terapeutas, fisioterapeutas, psicólogas e outras profissionais que sabem mais o que fazer diante de uma parturiente amedrontada do que reprimi-la, prender seus membros, fazer piadas ou simplesmente deixá-la sozinha por horas a fio.
Comprar equipamentos, distribuir vales para que a gestante possa se locomover, garantir vagas para mulheres em trabalho de parto é extremamente necessário, mais complexo é reformular as cabeças e as atitudes dos profissionais que desaprenderam a prestar uma assistência humanizada às mulheres durante o parto. A assistência ao parto desumanizou-se ao longo dos anos, o ritual familiar e amoroso de recepção ao bebê virou uma espécie de plantão médico de emergência, quando se sabe que emergências não são praxe; parir e nascer, de maneira geral e na maioria dos casos, é uma ato fisiológico, delicado, que exige cuidados humanos, mas é essencialmente natural, exige apoio, carinho, delicadezas e respeito, muito respeito a um momento que para ser belo como merece, exige dedicação e compromisso apenas com o relógio interno da mulher.
Quando assistido com cautela, paciência, ausculta, massagens, em ambiente acolhedor escolhido pela parturiente, com suporte de doulas o parto é, segundo evidências, mais seguro e até mais rápido. Pressão, métodos arcaicos de suporte, pressa, inabilidade para trabalhar o corpo em trabalho de parto, falta de liberdade de movimentação para as parturientes atrasa o processo e, muitas vezes, como atestam os índices, leva a experiências traumáticas, dolorosas ou cesarianas.
O feminismo não se encerra no parto, mas começou aí. Nos bastidores da cirurgia que chegou para salvar vidas de mulheres e de crianças que não davam conta de salvarem-se na luta pela sobrevivência, reside uma das maiores representações de machismo na vida das mulheres: a cesariana agendada, desnecessária.
O ritual do parto foi durante grande parte da história uma resistência feminina, ele representava uma prova de capacidade feminina inigualável; a mulher afastava-se de todos aos primeiros sinais de trabalho de parto para o fundo de um campo, uma floresta, armava o “ninho” e paria. Voltava para a vida social provando que ela e o filhote haviam dado conta da luta pela sobrevivência e assim eram aceitos e celebrados.
Aos poucos, conforme crescia a solidariedade entre as mulheres, o evento transformou-se num dos poucos redutos sociais de poder feminino e a mulher passou a receber suporte de outras mulheres para parir. O trabalho de parto e especialmente o momento da expulsão eram protegidos dos olhos dos homens. O parto era a maçonaria das mulheres. No segundo livro de Pentateuco, o Êxodos, tem uma passagem que demonstra o grande poder das mulheres sobre o parto.
A ordem do faraó era para que as parteiras sacrificassem todos os filhos de mulheres hebréias. Elas desobedeceram e diante do faraó deram como única desculpa o fato de que as mulheres hebréias não eram como as egípcias, tinham partos muito rápidos e antes mesmo das parteiras chegarem, as hebréias já haviam dado à luz. Não foram punidas e a ordem se desfez no ar.
A história das gregas, especialmente da mulher ateniense, se passou no lar; era considerada menor, não tinha direito público e casava-se ainda adolescente com homens na faixa dos 30 anos que exerciam a função tanto de maridos quanto de tutores jurídicos. A principal função da mulher era parir filhos homens, as meninas podiam ser sacrificadas a mando do marido, mas a prática médica hipocrática era voltada essencialmente para a guerra, luxações, feridas, fraturas, cirurgias e dietética. O saber empírico sobre o parto continuou com as mulheres, os homens não viam ainda poder algum ali para ser tomado e a assistência ao parto continuou à margem da prática médica.
O primeiro programa formal de treinamento de parteiras foi no séc V A.C, iniciado por Hipócrates, mas a profissão de parteira não chegou nem perto da medicina, até porque as mulheres não podiam freqüentar escolas médicas, mesmo quando eram reconhecidamente “iatpouiaai”, médicas-parteiras experientes em casos complicados.
As práticas de apoio social feminino foram mantidas durante quase todo o século XIX, mesmo quando as famílias abastadas começaram a contratar os serviços médicos.
Enquanto se manteve domiciliar, a colaboração das mulheres, a parceria entre parteira e doutor preservou o parto como evento essencialmente feminino, sendo o médico mais uma figura para fazer recomendações e cuidar da saúde da mulher e do bebê no pós-parto.
Lentamente, dentro de um processo político e econômico focado no tecnicismo, a mulher foi entregando também o corpo fisiológico paridor, feminino ao homem, começou a duvidar da sabedoria empírica de suas ancestrais e principalmente a acreditar no próprio corpo como falho, uma máquina que poderia emperrar a qualquer momento, uma máquina que necessitava da intervenção masculina. Bacia estreita é até hoje uma das desculpas mais estapafúrdias para justificar a cesariana, quando se sabe que o problema não é bacia da mulher, mas a maneira como o bebê encaixa a cabeça e a tensão da mulher, muitas vezes pela pressão externa e falta de liberdade para caminhar e escolher a posição mais confortável.
Hoje se sabe que se a mulher ficar agachada ou de quatro, o bebê encontrará 28% menos resistência para reencaixar-se corretamente e existe uma infinidade de exercícios para que a gestante relaxe, ceda e o bebê se acomode melhor. Mas como isso pode ocorrer se ao chegarem às maternidades, públicas ou privadas, as mulheres são deitadas, imobilizadas, se a assistência não sabe o que pode fazer para ajudar as parturientes a relaxar?
A Rede Cegonha tem um trabalho imenso a fazer com a assistência porque se os profissionais aprenderem a fazer um trabalho melhor, a cultura pró-cesariana que se instalou na sociedade vai acabar mudando também. O SUS tem nas mãos a responsabilidade e a oportunidade de oferecer um serviço melhor do que o particular e dos convênios.
O corpo social feminino capaz de parir passou a ser manipulado e monopolizado pelos homens como uma barganha no mesmo momento em que a mulher ganhou espaço político na sociedade. Na história brasileira houve na década de 1940, em vários estados do Brasil, uma caça às parteiras, às bruxas da assistência ao parto. Foi um processo complicado, absolutamente não tratado do ponto de vista psíquico masculino e literalmente o nascimento virou uma espécie de estupro sagrado. Curiosamente a cesariana agendada acabou sendo considerada uma espécie de direito da mulher, a libertação de uma condição feminina “ruim” por ser diferente do corpo masculino. Algo como “se os homens não podem parir, então nós também não queremos parir”.
Para obter o filho, o falo de seu sagrado pênis, o homem cortou, puxou, empurrou e criou instrumentos e técnicas que hoje ainda custam a ser derrubadas nas melhores maternidades do país, como kristeller, episiotomia, raspagem de pelos, jejuns degradantes, abandonos, piadas e outras ações vindas da inconsciência tabulada por sofrimentos psíquicos masculinos até hoje não resolvidos em muitos homens, em muitos pais, em profissionais. O parto passou a ser visto como algo degradante, feio, sujo, menor e tratado assim inclusive pelas próprias mulheres.
A mulher foi literalmente deitada para parir, passou a ter pernas braços amarrados, ainda que essa posição, em decúbito dorsal, esteja longe de facilitar a descida e a expulsão do bebê, cause mais dor e sofrimentos desnecessários e prejudiciais à mulher e ao bebê. Infinitas teses comprovam a ineficácia e o risco dessa posição, mas ela se mantém nas maternidades públicas ou privadas e hoje já não importa se a assistência vem de homens ou de mulheres porque as repetições são assim, vão ficando mecânicas, é difícil questionar e mais difícil ainda mudar as atitudes.
A cesariana surgiu como uma válvula de escape para essa visão distorcida do momento do nascimento e não tardou para que as próprias mulheres passassem a ver a cirurgia como uma saída mais digna, menos violenta, menos sofrida. Especialmente no Brasil, a cirurgia que deveria servir para salvar vidas, transformou-se em uma opção e assim elevaram-se os números de nascimentos de bebês prematuros com problemas cardiorrespiratórios, mulheres com problemas de vínculos e de amamentação com seus bebês e embora tenhamos números sobre uma maior segurança para mães e bebês que passam por um parto natural, está difícil dobrar a assistência, fazer com que ela se curve diante do ritual do nascimento baseada em evidências, com paciência, em atendimentos que não devem priorizar o tempo da linha de montagem hospitalar, mas a necessidade das mulheres de receber um atendimento cuidadoso, carinhoso, estimulante, encorajador.
A Rede Cegonha se ministrada por profissionais cesaristas, vaidosos que não querem alongar o olhar sobre as evidências atuais, pode virar apenas mais uma piada nos hospitais públicos e mais uma maneira de eternizar o atendimento cesarista bonzinho, educadinho, comum no sistema privado corporativista.
Bem levado, bem tocado com pulso firme e dando voz às mulheres e aos profissionais pioneiros da humanização, a Rede Cegonha pode servir como modelo a ser copiado pelo sistema privado em todo o território nacional.
Cláudia Rodrigues, jornalista, terapeuta reichiana, autora de Bebês de Mamães mais que Perfeitas, 2008. Centauro Editora. Blog:http://buenaleche-buenaleche.blogspot.com

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