quarta-feira, 16 de maio de 2012

Das dores - por Ana Cris Duarte (parteira)

Texto ótimo escrito pela parteira Ana Cris! TODAS as mulheres deveriam ler, grávidas ou não!

PESSOAL - TP DA SEGUNDA GESTAÇÃO


Eu acho que qualquer convera sobre parto (e qualquer realidade), deveria começar com: “você tem direito a analgesia de parto quanto e quando você solicitar. tudo bem? tranquila? agora vamos falar sobre dor do parto?” 
Nossa sociedade e a maioria das sociedades ocidentais fazem grande alarde sobre a dor do parto, insistindo que é praticamente insuportável. existem até comparações feitas por anestesistas (via de regra homens), dizendo que a dor do parto se assemelha à dor de arrancar um dedo. acho incrível que alguém possa comparar dores, para começar. a não ser que a pessoa tenha parido e tenha tido um dedo arrancado, essa comparação é, antes de tudo, uma piada de mal gosto, tanto do ponto de vista das mulheres quanto dos mutilados sem um dedo. 
a dor do parto se assemelha à dor de dar à luz e a nenhuma outra. ela pode ser insuportável para umas e perfeitamente manejável para outras. não tem como saber antes de experimentar a sensação. mas antes que você enlouqueça e contrate um anestesista no dia em que seu noivo te peça em casamento, vão aqui algumas dicas para tranquilizar seu coração:
1. as contrações começam fracas e curtas, com a sensação de uma cólica em geral leve, que começa fraca, tem um pico mais forte e fica fraca novamente, até desaparecer. isso dura por volta de 30 segundos no início. elas vão ficando mais fortes, mais longas e mais frequentes à medida que o parto evolui. o máximo a que elas chegarão será numa frequência de uma a cada três ou quatro minutos. vão durar até 60 a 90 segundos. e nos intervalos você poderá respirar, descansar e até dormir.
2. as dores que em geral conhecemos são as dores negativas de algo que não está certo, um dente inflamado, um ligamento distendido, uma pancada, uma queimadura. a dor do parto é diferente de todas as outras porque ela vai te trazer um bebê, seu filho. a sensação dessa dor é portanto positiva, a não ser que chegue a níveis muito fortes da metade para o fim.
3. embora em geral estejamos acostumados a ligar o termo “dor” com “sofrimento”, a verdade é que nem toda dor é sofrida. quando fazemos um exercício mais puxado e no dia seguinte sentimos dores musculares do esforço, não tomamos medicamentos nem nos sentimos sofredoras, pelo contrário, enchemo-nos de orgulho. a dor do parto também pode ser vivenciada da mesma forma.
4. a parte mais intensa é a da dilatação. quando o bebê começa a descer pelo canal de parto, a tal “passagem”, em geral a dor é substituída por uma incrível sensação de pressão e uma vontade incontrolável de fazer força. para a maioria das mulheres, o nascimento em si, a passagem do bebê, é bem mais fácil de lidar do que a fase da dilatação em si.
5. para as mulheres que desejam um parto sem dor, a analgesia peridural é uma opção disponível a partir do momento em que a mulher deseje não sentir mais dor. quanto mais tarde se usa a anestesia, menos ela atrapalha o parto. mas lembre-se que é melhor um parto atrapalhado por analgesia do que uma cesariana porque você acha que
não vai dar conta. no entanto a analgesia de parto é longa, o anestesista precisa estar presente o tempo todo, o que faz com que em algumas cidades e em alguns hospitais ela não seja uma opção para as mulheres. quanto melhor a equipe de anestesistas, melhor a disponibilidade para quem precisa do recurso.
6. não existe muito cedo nem muito tarde para se solicitar analgesia de parto. o procedimento leva cerca de dez a quinze minutos para ser feito e pode durar até muitas horas, de acordo com a conveniência da parturiente.
7. a anestesia de parto não passa para o bebê, ela fica restrita ao espaço da coluna vertebral onde é aplicada. no entanto ela pode provocar vasodilatação, baixa pressão arterial e reflexos desses problemas na placenta e na oxigenação do bebê. portanto ela não é isenta de riscos. no entanto a anestesia da cesariana é ainda mais forte e também pode dar os mesmos problemas, com frequência ainda mais elevada, dada a quantidade maior de anestésicos que é aplicada.
8. antes do recurso da analgesia, existe outros bastante eficientes que ajudam a diminuir a sensação de dor, como as massagens localizadas, bolsas de água quente, banhos de chuveiro e de imersão em água à temperatura do corpo. uma doula experiente também pode ser de grande ajuda, oferecendo dicas de conforto, massagens eficazes e palavras de apoio que são como bálsamo para uma mulher determinada a um parto natural.
9. as equipes que trabalham com parto natural e analgesia se necessário relatam taxas de cesariana de 10 a 15%, e taxas de analegesia nos partos normais entre 5 e 30%. em outras palavras, mesmo que as drogas estejam disponíveis, a maioria das mulheres consegue lidar bem com as contrações do parto e acabam não necessitando do
recurso.
10. as sensações naturais do parto provocam a produção de uma incrível cascata de “hormônios do bem”, que afetam igualmente a mãe e o bebê. abrir mão desse coquetel de hormônios é perder a oportunidade de uma experiência transcendental incrível, inédita e só replicável no próximo parto. não deixe de conhecer essa sensação e de testar os seus limites. experimente, conheça seus recursos e acima de tudo, escolha uma boa equipe para te auxiliar nesse processo.


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