segunda-feira, 25 de junho de 2012

Entre a dor e o prazer (ou os dois juntos) - por Jeane Bordignon


Texto da minha amiga jornalista Jeane. Uma delícia de ler e entender sobre dois lados de uma mesma moeda!!

“Tudo é Duplo; tudo tem polos; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados.” (O Caibalion)

O texto acima vem do Antigo Egito e pertence a preceitos do conhecimento mais profundo. Um conhecimento que, num mundo cada vez mais acelerado e cheio de ocupações e distrações, parece cada vez mais distante das pessoas “comuns”. E assim, não compreendemos nosso próprio corpo e nossa natureza.

Some-se a isso a forte cultura cristã-católica que impregna nossa sociedade há mais de dois milênios. Uma cultura que ensina que somos todos pecadores, onde a dor é punição ao pecado do prazer. “Parirás entre dores”, diz Deus à Eva, depois que esta cai em tentação e come o fruto proibido. Essa ideia foi tão infundida e propagada que hoje poucos lembram que dor e prazer são extremos de uma mesma sensação, opostos sim, mas que se tocam.

Frio e calor, amor e ódio, luz e escuridão, fraqueza e força... vivemos sempre entre extremos que se alternam, e buscando o ponto de equilíbrio. E esse ponto não é a combinação perfeita dos opostos, mas a compreensão do fluxo, do eterno ir e vir (ao princípio da Polaridade, citado no começo deste texto, se segue o do Ritmo – tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; o ritmo é a compensação).

Talvez em nenhum momento esse Ritmo da natureza possa ser melhor compreendido do que no trabalho de parto: as contrações não são contínuas, vão e vêm como ondas. Se a dor por um momento chega a parecer insuportável, em seguida ela se vai, e volta a sensação única e sublime de estar trazendo uma vida ao mundo. Mas nos ensinaram que aquele serzinho que está nascendo é fruto do pecado, e o nascimento tem que doer muito para sermos perdoadas... é justo e correto que nascer seja algo sofrido?

Sofrimento. Talvez esteja aqui um outro grande equívoco. Associamos toda dor a um sofrimento, a uma coisa extremamente negativa, ruim. Às vezes, sim, a dor é um alarme do corpo de que algo não está bem. Em outras, é apenas um sinal de que algo está se modificando, de que estamos tentando expandir nossos limites. A dor pode ser apenas uma reação do corpo a algo a que ele não está acostumado. A primeira relação sexual costuma doer, porque o corpo nunca viveu aquilo. Ou quando se começa a praticar exercícios físicos regularmente, o corpo dói até se acostumar a ser levado a outros limites.

Mesmo com dor, o sexo e a ginástica nos trazem sensações de bem-estar. Liberam endorfina, o hormônio do prazer. Já em situações de estresse, o corpo produz adrenalina, um hormônio que nos deixa mais alertas para avaliar o perigo e partir para a fuga ou a luta. A descarga de adrenalina deixa o coração acelerado, os músculos mais enrijecidos... uma tensão que é necessária em momentos em que precisamos usar nosso instinto de sobrevivência, mas que nos sobrecarrega quando é constante. E que atrapalha o ritmo quando outros hormônios deveriam estar em ação.

Endorfina e adrenalina estão presentes no trabalho de parto, mas é um momento em que a função maior pertence à ocitocina, tão importante que é chamada de hormônio do amor. Além de estimular as contrações e a lactação, a ocitocina é responsável pelo vínculo intenso se forma entre mãe e bebê naquele momento. É nos primeiros instantes após o nascimento que o corpo da mãe está repleto do hormônio do amor, e é também ele que a faz amar mais do que tudo aquele bebezinho que ela acaba de tomar nos braços pela primeira vez.

Isso não quer dizer que o vínculo não possa ser feito sem essa descarga de ocitocina. Mas acaba sendo mais lento e difícil. No caso de uma cesariana, além da falta do hormônio, a mãe está com parte do corpo anestesiado, os braços presos a soro e aparelhos, não consegue receber seu filho como se estivesse livre. (Claro que há casos em que a cirurgia se faz necessária. Mas ela devia ser apenas um procedimento de emergência, não de comodidade). Muitas mulheres se submetem a esse procedimento apenas pelo medo de sentir muita dor, de não suportar a dor do parto. Nem vamos entrar na questão do parto natural ser muito melhor para o bebê, que nasce mais forte e ativo, e para a mãe, que se recupera mais rápido, estando logo pronta a cuidar de seu filho. Para um grande número de gestantes, o medo da dor parece ser maior do que as vantagens do parto natural.

O que não falta ao redor de grávidas são outras mulheres que tiveram experiências negativas de parto e, na maioria das vezes com boa intenção, transferem o seu trauma. Isso sem que nem a que vai passar quanto aquela que já passou questionem o que faz com que um nascimento, que deveria ser um momento especial, seja visto de forma tão sofrida. Talvez tenha sido o ambiente pouco acolhedor do hospital, o desconforto de ser obrigada a ficar numa posição desfavorável ao parto (deitada de barriga para cima), ou o uso da ocitocina sintética. A versão artificial do hormônio do amor é ministrada para acelerar as contrações, fazendo com que o trabalho de parto seja mais rápido. Mas querer apressar o ritmo da natureza tem um preço. As dores são muito mais intensas, e o organismo confuso com aquele hormônio extra não consegue fazer a compensação que torna a dor do parto suportável.

Quando está totalmente entregue ao processo de trazer seu filho ao mundo, diz-se que a partir de determinado ponto do TP a mulher entra na Partolândia. Não é mais a mente racional quem comanda, é o instinto de mamífera, de fêmea que sabe deixar que seu corpo faça o que for preciso. O mesmo corpo que por nove meses abrigou e nutriu, agora recebe os sinais do bebê de que ele está preparado para a vida fora do útero. E então encaminha seu fruto, que no trajeto apertado que precisa percorrer já vai aprender a superar obstáculos, e chegar aqui do outro lado mais forte. Durante esse processo, uma cascata de hormônios se derrama sobre o corpo da mulher. É algo tão intenso que a dor pode ficar pequena diante de todas as outras sensações que o TP provoca.

Mas, claro, isso só é possível se a parturiente estiver tranquila e segura o suficiente para deixar seu instinto comandar este momento. Se puder respeitar os sinais de seu corpo ao invés de ser obrigada a ficar na mesma posição desconfortável por horas. Se tiver um ambiente calmo ao seu redor, com luz suave e pouco barulho. Se tiver ao seu lado apenas pessoas que lhe deem o apoio necessário, sem querer interferir na natureza apenas para que o bebê nasça mais rápido, permitindo que tudo aconteça a seu tempo.

Dessa forma, o organismo da mulher segue o ritmo que a leva entre os polos da dor e do prazer, que podem até coexistir. A experiência do parto pode ser extremamente prazerosa, mesmo com dor. E por que não, se é a experiência mais intensa da vida de uma mulher? Não é pecado, nem algo feio e condenável, sentir prazer. É apenas se permitir ser feliz, sem medo de uma dor que nada tem de sofrimento. Ela é só o reflexo do esforço necessário para gerar, criar, dar vida, colocar no mundo um novo ser. 


Jeane Bordignon é Jornalista e Ativista da Humanização do Parto e Nascimento.

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