domingo, 31 de março de 2013

Documentário " Um Dia de Vida"

domingo, 17 de março de 2013

O Puerpério - por Laura Gutman

Laura Gutman é escritora e terapeuta argentina. É autora de vários livros que exploram o universo da maternidade, os vínculos familiares e as dinâmicas violentas as quais os seres humanos sofrem. Alguns desses títulos são a "A Maternidade e o encontro com a própria sombra" e  “La revolución de las madres”. Ainda não tive o prazer de lê-los por completo, só alguns capítulos traduzidos e disponibilizados em alguns grupos de maternidade. Este é um artigo escrito por ela e traduzido pela Flavia Penido que é  psicoterapeuta e educadora perinatal. Leiam!

Bê recém nascido

O Puerpério
Por Laura Gutman

(tradução livre de Flavia Penido)

Vamos considerar o puerpério como o período que transita entre o nascimento do bebe e os dois primeiros anos, ainda que emocionalmente haja um progresso evidente entre o caos dos primeiros dias –em meio a um pranto desesperado- e a capacidade de sair ao mundo com um bebe nas costas.

Para tentarmos submergirmos nas difíceis trilhas energéticas, emocionais e psicológicas do puerpério, creio necessário reconsidera a duração real deste trânsito. Refiro-me ao fato que os famosos 40 dias estipulados - já não sabemos por quem nem para que- tem a ver só com o histórico veto moral para salvar a parturiente do pedido (reclamo) sexual do varão. Mas esse tempo cronológico não significa psicologicamente um começo nem um final de nada.

Minha intenção –pela falta de um pensamento genuíno sobre o “si mesmo feminino” na situação de parto, lactação, criação e maternagem em geral- é desenvolver uma reflexão sobre o puerpério baseando-nos em situações que às vezes não são nem tanto física, nem visível, nem tão concreta, mas não por isso são menos reais. Vamos falar em definitivo do invisível, do submundo feminino, do oculto. Do que está mais além do nosso controle, mais além da razão para a mente lógica. Tentaremos nos aproximarmos da essência do lugar onde não há fronteiras, de onde começa o terreno do místico, do mistério, da inspiração e da superação do ego. Para falar do puerpério, teremos que inventar palavras, ou outorgá-las um significado transcendental.

Para nós, que já o temos transitado faz muito tempo, nos dá preguiça voltar a recordar esse lugar tão desprestigiado, com reminiscências à tristeza, sufoco e desencanto. Recordar o puerpério equivale frequentemente a reorganizar as imagens de um período confuso e sofrido, que engloba as fantasias, o parto tal como foi e não como havia querido que fosse, dores e solidões, angustias e desesperanças, o fim da inocência e o inicio de algo que dói trazer outra vez a nossa consciência.Para começar a armar o quebra-cabeça do puerpério é indispensável ter em conta que o ponto de partida é o parto, quer dizer, a primeira grande desestruturação emocional. Como descrevi no livro “maternidade e o encontro com a própria sombra ”para que se produza o parto necessitamos que o corpo físico da mãe se abra para deixar passar o corpo do bebe, permitindo uma certa “ruptura” corporal também se realiza em um plano mais sutil, que corresponde a nossa estrutura emocional. Há um algo ”que se quebra, ou que se “desestrutura” para conseguir a passagem de “ser um a ser dois”.

É uma pena que atravessamos a maioria dos partos com muito pouca consciência com respeito a este “rompimento físico e emocional”. Já que o parto é sobre tudo um corte, uma quebra, uma brecha, uma abertura forçada, igual à irrupção do vulcão (o parto) que geme desde as entranhas e que ao lançar suas partes profundas destroem necessariamente a aparente solidez, criando uma estrutura renovada.

Depois da “erupção do vulcão” nós as mulheres, encontramos com o tesouro escondido (um filho nos braços) e, além disso, com insólitas pedras que se desprendem como bolas de fogo (nossos “pedacinhos emocionais”, ou nossas partes mais desconhecidas) rodando em direção ao o infinito, ardendo em fogo e temendo destruir o que roçamos. Os “pedacinhos emocionais” vão queimando o que encontram a seu caminho. Olhamos atordoadas, sem poder crer a potência de tudo o que vibra em nosso interior. Incendiando e caindo no precipício, costumam manifestar-se no corpo do bebe (como uma planície de pasto úmido aberta e receptora). São nossas emoções ocultas que desdobram suas asas no corpo do bebe saudável e disponível.

Como um verdadeiro vulcão, nosso fogo roda por todos os vales receptores. É a sombra, expulsa do corpo.

Atravessar um parto é preparar-se para a erupção do vulcão interno, e essa experiência é tão avassaladora que requer muita preparação emocional, apoio, acompanhamento, amor, compreensão e coragem por parte da mulher e que de quem pretende assisti-la.
Todavia poucas vezes nós as mulheres encontramos o acompanhamento necessário para introduzir-nos logo nessa ferida sangrenta, aproveitando esse momento como ponto de partida para conhecer nossas renovadas estrutura emocional (geralmente bastante maltratada, por certo) e decidir o que faremos com ela.

O fato é que -com consciência ou sem ela, acordadas ou dormindo, bem acompanhadas ou sós, incineradas ou a salvo- o nascimento se produz.Lamentavelmente hoje em dia consideramos o parto e o pós-parto como uma situação puramente corporal e de domínio médico. Submetemo-nos a um tramite que com certa manipulação, anestesia para que a parturiente não seja um obstáculo, droga que permitem decidir quando e como programar a operação e uma equipe de profissionais que trabalham coordenados, possam tirar o bebe corporalmente são e felicitar-se pelo triunfo da ciência. Estas modalidades estão tão arraigadas em nossas sociedades que as mulheres nem sequer nos questionamos se fomos atrizes de nossos partos ou meras expectadoras. Se foi um ato íntimo, vivido desde a mais profunda animalidade, ou se cumprimos com o que se esperava de nós. Se foi possivel transpirar ao calor de nossas chamas ou se fomos retiradas da cena pessoal antes do tempo.

Na medida em que atravessamos situações essenciais de ruptura espiritual sem consciência, anestesiadas, dormidas, infantilizadas e assustadas...ficaremos sem ferramentas emocionais para rearmar nossos pedacinhos de chamas, permitindo que o parto seja uma verdadeira transição de alma. Frequentemente assim iniciamos o puerpério: afastadas de nós mesmas.

Anteriormente descrevíamos a metáfora do vulcão na chama, abrindo e rachando seu corpo, deixando a descoberto a lava e as pedras. Analogamente do ventre materno urge o bebe real, e também o interior desconhecido dessa mamãe, que aproveita o rompimento para correr pelas fendas que ficaram abertas. Esses aspectos ocultos encontram uma oportunidade para sair do refúgio. A sombra (quer dizer, qualquer aspecto vital que cada mulher não reconhece como próprio, a causa da dor, o desconhecimento ou o temor) utiliza a ruptura para sair de seu esconderijo e apresentar-se triunfante na superfície.

O problema para a mamãe recente é que se encontra simultaneamente com o bebe real que chora, demanda, mama, se queixa e não dorme...e ao mesmo tempo com sua própria sombra (desconhecida por definição) , inabacárvel e indefinível.
Porém concretamente com que aspectos de sua sombra se encontram? Cada ser humano tem sua personalíssima historia e obstáculos a recorrer, por tanto só um trabalho profundo de introspecção, busca pessoal, encontro com suas dores antigas e coragem poderá guiar-nos até o interior dessa mulher que sofre a traves da criança que chora.
O puerpério é uma abertura de alma. Um abismo, Uma iniciação. Se estivermos dispostas a submergirmos nas águas de nosso eu desconhecido.


 Disponibilizado aqui

quarta-feira, 13 de março de 2013

Relato de parto da Mariana e do Samuel

Aqui vai o relato da Mari e do Samuel. Ela é minha amiga há anos e doulanda outra vez (eeeeeeeeh, lá vem a Mel!). Baita presente de aniversário. Leiam...

Gestação do Samy!
Tem tempo que eu preciso fazer isso, mas a rotina tumultuada acaba fazendo com que eu deixe para o dia seguinte, mas por um motivo mais do que especial o faço hoje 11/03/13.

A mais ou menos uns 7 anos (não exatos) conheci a pessoa que hoje é além minha amiga, minha doula, minha “médica”, pediatra do meu filho, meu pinico de ouvido em fim minha conselheira MINHA DOULA.
...
Quando eu soube que estava grávida no dia 21/06/2011 planejei tudo em minutos, faria uma cesariana numa sexta feira pela manhã, receberia visita no final de semana e tudo seria perfeito rsrsrsrsrs.

Com o passar da gestação acompanhei muitas postagens da Ana no face, no orkut a respeito de parto humanizado dos benefícios e tudo mais...Mas relutante fiquei na minha... Com muitas dúvidas resolvi ligar pra ela... Não deu outra marcamos nosso primeiro encontro DOULA e DOULANDA que nem sabíamos que assim seria um encontro de amigas para uma conversa informal kkkk.

Ana com seu imensurável profissionalismo foi introduzindo seu trabalho em nossa conversa, comentei que eu não suporto sentir dor e que não queria passar dificuldades para receber em meus braços o meu guri, sim pq meu filho não tinha nome até o oitavo mês rsrsrsr (Samuel); conversa vai conversa vem ela me mostrou alguns trabalhos como doula, lembro que ela começou a me mostrar uns vídeos de parto eu disse: “Ana não quero ver “, pois acabava ficando muito ansiosa. Ela entendeu perfeitamente e começou a me levar para a “partolândia” me explicando das maravilhas do parto humanizado. Delicíaaaaa!

Eu por minha vez, durante minha gestação não parei um minuto trabalhava quase que 24h, pois tenho pra mim que cabeça vazia oficina do coisa ruim, ficava difícil nossos encontros, mas Ana muito atenciosa me ligava constantemente, me emprestou sua bola suíça (já estou precisando dela outra vez rsrsrs) me passou alguns exercícios e dizia que precisava falar com meu esposo também (pensa em falar com presidente mais fácil) rsrsrsrs, xucrinho, mas hoje ele tem muita admiração pela Ana.

Em uma de minhas visitas com 30 semanas a GO me falou que eu já estava com um dedo de dilatação mas o Samuel não estava descendo...(?????) Ela pediu que eu conversasse com minha doula para fazer alguns exercícios e caminhadas para que ele descesse... Ana me levou a bola e uns exercícios pra eu fazer, neste mesmo dia (rindo muito ao lembrar) cai da rede, o Samuel deve ter descido na marra kkkk

Continuando...

Meu esposo ama praia e de castigo por já estar com 38 semanas em janeiro não íamos pra a praia com receio de entrar em trabalho de parto.
Porém no dia 09/02/12 quinta-feira ele me convenceu de irmos na sexta e voltarmos no sábado a noite onde não pegaríamos tranqueira. Contrariada mas compreensiva do desejo dele aceitei.
Na sexta dia 10/02/12 (com extas 39 semanas e 5 dias), como de costume já dormindo pouco por estar na reta final, não tendo mais posição confortável para dormir, acordei tomei meu banho e falei pro meu guri, vamos trabalhar só mais hoje filho, a mãe vai parar.
E parei mesmo kkkk

Vim pra loja, me estressei demais com meu chefe briguei com ele fiquei muito nervosa chorei um monte e disse que ia pedir minha licença...Contei para o Alex ele me acalmou... e a vida seguia, como já não desinchava mais fazia o serviço de banco da loja após as 15h meu gerente autorizava minha entrada, mas sempre reclamando que eu ia ganhar o Samuel dentro do banco rsrsrsrsr, boca santa rsrsrsrsrs, estava no caixa olhei para Gabriela que estava me atendendo e disse XIXI e sai as pressas, ao me secar SANGUEEEEEEEEE nossa me assustei, liguei pra minha GO que sairia de férias neste mesmo dia (DECEPCIONADA) pois fiz meu pré natal todo particular pq tinha que ser ela e ela não atendia meu plano, ao me atender me passou seu colega, liguei pra ele, ele pediu que eu fosse ao hospital para fazer uma avaliação, muito receosa quanto ao hospital Dom João Becker falei pra ele que não iria ali, e sim para o Moinhos...Ele me deixou bem a vontade...
Não satisfeita liguei para meu porto seguro naquele momento, minha DOULA, contei o que tinha acontecido, ela pediu que eu ficasse calma, mas não achava necessário ir para o hospital...não fui... fui pra casa, liguei para meu esposo, minha mãe, ah ia esquecendo minha tia estava comigo, muito mais nervosa que eu por sinal...Ao chegar em casa começaram umas dores das costas para a barriga...(contrações hoje eu sei) lembrei que tinha marcado dentista, fugi de casa e fui; mãe vaidosa não queria ficar com borrachinha velha (sim uso aparelho), chegando ao consultório da minha dentista as contrações aumentaram, ela apavorada só trocou as borrachinha e me chamou de doida kkkk.
Voltando pra casa quem esta a minha espera minha DOULA, mesmo dizendo a ela que eu ligaria se precisasse ela estava lá (diliça), cheguei com contrações bem espaçadas, Ana perguntou se eu queria tomar um banho para relaxar, SIMMMMMMMM.
Antes liberei o marido para que ele não ficar na minha volta e me deixar nervosa. Ana conversou com ele, não sei o que, mas o deixou muito tranqüilo e ele voltou para loja.
Fui tomar banho minha mãe e minha tia muito preocupadas queriam que eu fosse para o hospital, (elas diziam que o Samuel ia nascer em casa) mas Ana não achava necessário e eu aguardava suas instruções... não sei bem o tempo que fiquei no chuveiro mas acho que por mais de uma hora com certeza, sai e fui me arrumar... Ana fez massagem na minha lombar, fiz uns agachamentos (maravilha) ajuda muito. Arrumei minha mala (sim não estava pronta), as contrações estavam diminuindo seus espaçamentos, Ana disse “se tu quiser ligar para o Alex, já pode”; liguei ele veio tranquilamente tomou banho, arrumou suas coisas também muito calmo (me surpreendeu).

Rumo ao hospital, as contrações ficavam mais intensas, mas eu estava tranquila  chegando ao hospital Moinhos de Ventos, tive que esperar para ser atendida, pois a salinha era minúscula e tinha um casal escolhendo roupinhas para o seu bebe que ia nascer de cesariana :/ , eu já não estava mais aguentando parecia que ele ia nascer a qualquer momento, entrei na salinha e disse para atendente vou ficar aqui e tu faz meu parto kkkk, ela me atendeu kkkkk, me passou para avaliação e assim eles ligariam par o Go que minha Go avia indicado.
NA sala de avaliação me atendeu um médico muito estúpido, me dizendo que eu ia voltar pra casa pois eu não tinha nada de dilatação ( endoideci ) disse pra ele que na consulta de quarta dois dias antes estava com dois dedos de dilatação... mas muito estupido ele disse que eu não ficaria ali... Gritei então pode me fazer uma cesariana daqui eu não saio, então de bandido virou mocinho na mesma hora(maldita maquina de fazer dinheiro), ligou para meu GO que não autorizou qualquer procedimento em mim (anjo), veio uma enfermeira muito atenciosa por sinal, mas com um cano na mão pedindo que eu me deitasse de lado pois ela faria uma tal de lavagem: NÃO MESMO não deixei fazer, pois conforme orientações da minha doula isso é desnecessário...
Meu GO finalmente chegou, deixaram meu marido entrar (quase quebrei a mão dele).
O Drº não levou meia hora pra chegar se apresentou me avalio e pediu que eu ficasse calma que ele não faria cesariana pois meu bebe já estava quase nascendo, pedi a ele que deixasse minha doula entra, muito contrariado pela normas da “maquina de fazer dinheiro” ele enfrentou e autorizou Ana a me ver... quando Ana entrou na sala eu disse a ela que já não estava mais aguentando  meu Go perguntou se eu queria fazer anestesia, eu disse que não pois não teria força para ajudar o Samuel a nascer...mesmo assim meu GO insistiu, dizendo que eu já estava cansada...mas relutei...então eu disse a Ana: não estou aguentando mais!!!!ela olhou para mim com um olhar sereno e disse: “ele já ta vindo vai para partolândia e fica tranquila”.
Nisso uma contração muito forte e meu Go examinou e disse já temos 9 dedos de dilatação vamos para sala de parto!!!! E lá fomos nós, a Ana não pode :/, mas o papai foi muito emocionado por sinal; na sala de parto me deitaram em uma cama, não me sentia confortável pedi ao GO se podia sentar, no máximo se inclinar ele disse, as contrações já não espessavam mais, O Go pediu um tal de bisturi, eu sentei e disse drº não me corte POR FAVORRRR, ele espantando respeitou minha vontade, disse a ele tbm, que quando nascesse o Samuel eu o queria em meus braços antes de cortar o cordão umbilical, então chamaram o anestesista ai então sentei novamente que alivio, no momento em que o anestesista prepara a aplicação os batimentos cardíacos ou o meu ou de Samuel estavam caído, e até hoje não sabemos de quem era...meu Go então falou: tem que ser agora uiiiii ...não deu tempo de fazer efeito e nasceu meu guriiiii recebi em meus braços com o AMOR MAIOR DO MUNDO, o paipai só chorava... então meu Go disse: “corte então mamãe o cordão” eu não quis cortar o SUPER PAIPAI Alex assim o fez cortou todo emocionado...
MOMENTO ÚNICO.

Logo ele seguia para os procedimentos alguns desnecessários mas tudo em perfeita saúde com o meu milagre, com o dom que só meu Deus poderia me dar SER MÃE.

Com 3.486kg e 49cm as 23:03 do dia 10/02/2012 

Meu eterno agradecimento ao GO que foi maravilhoso respeitando meu desejo, meu esposo, minha Doula amada, minha mãe.

A DEUS 

Enfim não sei se fui muito clara no meu relato, mas penso só em que quem ler, entenda a importância e não o luxo de se ter uma DOULA ainda mais uma AMIGA DOULA.

Ana saiba da nossa eterna gratidão por seu imenso carinho comigo gestante, comigo mãe de primeira viajem, com o Samuel, e com o super paipai Alex.

Um beijo no seu coração, um feliz aniversário!!!!!!!!!
Que Deus abençoe vc e sua família. 
11/03/2013 


quinta-feira, 7 de março de 2013

COMO EDUCAR SEM PALMADAS? - Parte 2

Continuando a belíssima explanação sobre o assunto de como educar sem bater nos nossos filhos. Texto da Dra. Ligia e Dra. Andreia. Leiam e reflitam!
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Essa é a segunda parte de um texto que traz uma rica discussão a respeito da pergunta: COMO  EDUCAR SEM PALMADAS?
À primeira parte, publicada em postagem anterior, demos o título de COMO EDUCAR SEM PALMADAS? - 9 pontos importantes que a mãe, o pai, o cuidador, todo mundo precisa saber. Mas decidimos acrescentar dois novos tópicos importantes à discussão e, portanto, trataremos de 11 pontos no total.

Eles são:

1) A criança é essencialmente boa. Entender as fases de crescimento e desenvolvimento te ajudará a obter ferramentas para educar em todas as idades.
2) Use o diálogo sempre.
3) Corrija adequadamente, use a relação "erro-consequência" e não "erro-punição".
4) Use reforços positivos
5) Birras: por que acontecem? Entender suas origens ajudará a lidar com elas. (incluído)
6) Como não criar um "bully". (incluído)
7) Vai doer mais nele que em você. Sempre.
8) De onde vem a agressividade? Como reconhecer sinais de descontrole?
9) Agressão psicológica é tão grave quanto agressão física
10) Não tenha medo de quebrar o ciclo
11) Quando sobreviver não é o bastante...

No post anterior, falamos sobre os quatro primeiros. Agora, vamos continuar.
Esperamos que seja útil a todos e que estimule mães e pais que ainda usam a violência como ferramenta a perceber que uma educação mais afetuosa e sem violência contribui para o crescimento e desenvolvimento de crianças mais saudáveis e que se sentem mais amadas. 
Que é, afinal, o que toda mãe e pai deseja.

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5) Birras: por que acontecem? Entender suas origens ajudará a lidar com elas

Crianças fazem birra. Se ainda não fizeram, uma hora irão fazer. Algumas vezes, mesmo diante de fatos tão triviais como não poder comer um doce antes do almoço, ou a recusa dos pais em comprar um brinquedo.

Uma das explicações para essas “explosões comportamentais” é: seus cérebros não estão completamente desenvolvidos e podem, com frequência, entrar em “curto-circuito”. Para entender como isso é possível, vamos falar um pouquinho sobre nosso cérebro.

Existem duas grandes áreas cerebrais, as quais vamos chamar de “cérebro reptiliano” e “cérebro mamífero”. O reptiliano é a parte mais antiga do cérebro humano, que sofreu poucas modificações ao longo da evolução, e é basicamente igual em todos os vertebrados. Essa região regula funções básicas relacionadas à sobrevivência, como fome, respiração e digestão, além de reações instintivas de defesa e ataque. Já o cérebro mamífero é mais complexo e foi sendo moldado ao longo da evolução. Está relacionado a habilidades de convivência, à construção de relações sociais, à regulação de sentimentos e reações emocionais como raiva, medo e estresse, pensamentos racionais, capacidade de solucionar problemas, criatividade e imaginação.

O bebê já nasce com a parte reptiliana, que se desenvolve ainda intra-útero. Mas o cérebro mamífero, racional (composto por neocórtex, lobos frontais) vai se desenvolvendo durante o crescimento da criança, atingindo a maturidade por volta dos 25 anos de idade. Sabendo disso, fica mais fácil compreender o porquê das crianças não conseguirem demonstrar alguns comportamentos de maneira precisa. Esperar uma reação emocional equilibrada de uma criança é como procurar minhoca no asfalto, é missão fadada à frustração, pois é simplesmente impossível esperar controle emocional, habilidade para tomar decisões equilibradas, noções claras de ética, de alguém que ainda não possui os “equipamentos” necessários a isso... Da mesma maneira, sua capacidade de compreender as relações de ação e reação, ato e consequência, também estão em pleno desenvolvimento, ainda não acabadas.

Há seis desencadeadores de “mau comportamento” – as tais birras – em crianças:
- cansaço, tédio, fome
- imaturidade cerebral
- necessidades psicológicas não atendidas
- estresse dos pais
- emoções intensas
- estilo de educar dos pais que ativa os sistemas de alarme na parte inferior do cérebro da criança (veja mais adiante, no item “Como não criar um bully”)

Uma criança que está tendo uma birra por angústia, está vivenciando dor genuína e precisa de muita calma e compaixão por parte de sua mãe, pai ou cuidador. Ignorar ou punir a angústia pode ser bastante prejudicial. Assim, procure identificar o tipo de birra e agir de acordo.

Se a criança estiver entediada (ela está gritando e jogando coisas no chão), aumente o tempo que passam brincando juntos. Ofereça alternativas de brincadeiras interessantes. Procure elaborar situações lúdicas no dia a dia.

Se a criança estiver frustrada (quis algo que não pode obter, por exemplo), ajude-a a encontrar as palavras, a expressar seus sentimentos da melhor maneira. Mostre empatia.

Se ela estiver desapontada, ajude-a a lidar com seus sentimentos de dor, não os ignore.

Se seu filho não está te escutando naquele momento, dê-lhe um prazo.

Veja essa experiência, compartilhada por uma mãe: 
Eu acho essencial para evitar conflitos preparar a criança para o que vai acontecer. Estou sempre adiantando, para eles, tudo o que vai acontecer. Quando saímos, digo todos os lugares para onde vamos, para que não fiquem frustrados achando que depois do primeiro lugar iremos para casa. Na maioria das vezes, deixo para o final algo que eles gostam muito, como ir ao parquinho. Então eu aviso: vamos primeiro na farmácia, depois no verdureiro, depois comprar a ração da Lola e depois no parquinho. Assim eles se preparam e não se frustram.A mesma coisa quando temos que ir embora de algum lugar legal, eu vou avisando: daqui a pouco vamos embora, ok? Daqui a 5 minutos vamos embora, tá? E assim não há birra para ir embora. E, muitas vezes, combino tudo antes mesmo de chegar ao lugar legal: vamos ficar só um pouco, porque temos que ir para casa almoçar para ir à escola, então na hora de ir embora, iremos sem briga, combinado? Funciona muito bem. Muitas vezes a mais velha me olha quando digo que é hora de ir embora e repete: "Vamos sem briga, né mamãe?". Também sempre aviso que não iremos levar nenhum brinquedo dos primos ou amigos quando formos embora da casa deles, porque isso tinha virado mania uma época. Só iam embora levando um brinquedo emprestado. Então, agora, eu aviso que não iremos levar nada emprestado, e assim não rola estresse.No mercado é a mesma coisa: aviso que cada um vai poder escolher um item. Lojas de brinquedo, quando vamos comprar presentes, aviso que só vamos comprar presente para o amigo, que as outras coisas nós podemos olhar, mas não comprar. E eles ficam na boa, sem estresse. Na verdade, eles compreendem muito mais do que a gente imagina. Eu acho que antecipar as coisas é uma ferramenta incrível para evitar frustrações.
 Outra mãe compartilha como lida com birras decorrentes de super-estimulação: 
Meu filho tem 1 ano e 10 meses. Quando fica estressado ou nervoso, procuro pegá-lo e ir com ele para outro ambiente ou local, para se acalmar. Tento desviar a atenção, mostrar alguma coisa que ele se interesse. Quando ele fica mais calmo, aproveito para conversar sobre o que aconteceu.
 Uma coisa é importante ressaltar. Embora as birras possam ser desafiadoras, elas representam uma grande oportunidade para ajudar seu filho a desenvolver conexões essenciais no cérebro, que o ajudarão a lidar com o estresse no futuro (6).


6) Como não criar um ‘bully’

O risco de criar uma criança que irá praticar bullying mais tarde também depende muito do tipo de criação que ela recebe. Um estilo de criação autoritário, onde a criança é disciplinada em excesso, no sentido autoritário do termo, quando é sempre criticada e comandada, pode estar modificando seu sistema cerebral de resposta ao estresse. Isso pode fazer com que seus sistemas de raiva e medo fiquem hipersensibilizados. Esse tipo de criação autoritária também a ensina uma relação de submissão/dominação e, mais tarde, a criança assim criada pode inverter os papéis, passando de submissa para dominadora em outras relações na forma de bullying.

Esse risco é especialmente considerável quando as palmadas fazem parte de sua educação. Quando ela é constantemente criticada, comandada e ameaçada, a região de seu cérebro que é essencial para comandar o pensamento racional, o planejamento e a reflexão pode não se desenvolver adequadamente (5). Além disso, cria-se um círculo vicioso: essas crianças têm menor capacidade de tolerância e paciência e as pessoas costumam reagir mal a elas, o que reforça ainda mais seus comportamentos.

7) Vai doer mais nele que em você. Sempre.

Por que se bate em crianças e adolescentes?
Provavelmente, as famílias que usam de palmadas não se reconhecem cometendo violência, mas, sim, acreditam que a palmada é correção, educação e, portanto, demonstração de amor.
Porém, essa conexão entre agressão física e amor é perversa, inaceitável e perigosa.
Que tipo de relação estamos incentivando em nossos filhos associando violência a amor?
Quem bate em um filho dizendo que foi por amor está ensinando a ele que é perfeitamente possível apanhar e, ainda assim, amar. Ou bater e, ainda assim, amar. E – SIM! – esse pode ser um dos reforçadores da violência doméstica futura, ou da criação de laços amorosos doentios, baseados na violência.

Vamos além. Vamos discutir o famoso bordão “Meu filho, isso vai doer mais em mim do que em você”.
Essa mensagem confunde em muito a criança.
A verdade é: NÃO VAI NÃO!
Vai doer mesmo é na criança, é óbvio!
Se isso fosse verdade, pai nenhum bateria em filho, pois seria o mesmo que se autoflagelar. Essa frase aviltante é apenas uma desculpa que os pais usam para seus filhos em uma tentativa de justificar as palmadas.

Ainda que você acredite que palmada educa, é importante saber que a resposta que está produzindo na criança é, na verdade, a da CULPA. Ela se sente culpada pela própria agressão que sofreu! Isso pode gerar traumas psicológicos, mágoas, medo constante de ser agredido, humilhação, subjugação, insegurança, logo em quem é mais frágil: a criança.

Quantas crianças se encolhem ou recuam, colocando a mão sobre suas cabecinhas, como para se proteger, ainda que o pai ou a mãe estejam apenas tentando lhes afagar? Isso acontece com muita frequência entre crianças que apanham dos pais. Elas não sabem mais quando a mão estendida é para lhes acariciar ou para lhes dar um tapa. E não sabem por um único motivo: eles não entenderam o motivo pelo qual apanharam. E não entenderam porque não lhes foi efetivamente ensinado. Apenas entenderam que: podem apanhar a qualquer momento. Quem apanhou na infância pode se lembrar de diversos momentos como esse...

Lembre-se sempre que o que educa não são as palmadas.
É a preocupação com a vida dos filhos, a empatia, a demonstração de tolerância, o diálogo.
Tudo isso é o que demonstra amor e realmente educa.
Uma criança que vive em uma família cujo amor é expresso pela gentileza e não pela violência aprende que essas coisas são excludentes e que, portanto, é com gentileza que se deve tratar aquele a quem se ama, nunca com violência. Por isso se diz tanto que, para termos uma sociedade futura amorosa e não violenta, é preciso, HOJE, cuidar com amor e não violência de nossos pequenos.


8) De onde vem a agressividade? Como reconhecer sinais de descontrole?

Quem já viu um cérebro, seja em aulas de anatomia, seja em imagens de livros ou sites de ciência, sabe que ele possuiu uma aparência superficial composta por diversas dobras. Essa camada que vemos na superfície é chamada de neocórtex. Como o próprio nome diz, é um córtex cerebral “novo”, no sentido de “surgiu recentemente na evolução biológica”. Isso significa que não está presente em todos os animais. Essa camada surge apenas nos mamíferos – peixes não tem, anfíbios não tem, répteis também não, nem tão pouco as aves. Na maioria dos mamíferos, é uma região muito pouco desenvolvida, e é nos primatas que o neocortex se desenvolve mais. Principalmente nos primatas humanos. Eu, você, seu filho, todas as pessoas. Por que isso é importante? Simples: pela função dessa área cerebral.
O neocortex é um modulador fino do comportamento. Ele garante (ou deveria garantir...) nossa adequação comportamental em diferentes ambientes, integrando funções como o pensamento, a análise múltipla da situação, o estabelecimento de estratégias, a análise dos prós e contras de nossas ações, acionando memória, antecipando consequências, entre outras funções. E, mais importante para os fins aqui discutidos, ele regula e controla a expressão do cérebro primitivo, especialmente a expressão de uma estrutura cerebral chamada amígdala, responsável pelo comportamento agressivo.

Para os animais sem neocórtex, situações que envolvem medo, ameaça, aborrecimento, disparam comportamentos de ataque, luta, enfrentamento, ou fuga. Mas nós, humanos, teoricamente deveríamos ser capazes de modular nossa agressividade por meio da reflexão – afinal, nós temos neocórtex bem desenvolvido!

Quando nossos filhos fazem algo que está em desacordo com o que esperávamos, é natural, portanto, que tenhamos ímpetos de contrariedade. A vontade de agir vigorosamente, por vezes de maneira violenta (física ou emocionalmente falando) vem de nosso cérebro primitivo. Mas a capacidade de refletir, de ponderar, de analisar os fatos – nossos filhos são seres frágeis que precisam de nós, que precisam de nossa orientação e apoio afetuosos, não de violência – nos faz bloquear a expressão do comportamento agressivo primitivo, substituindo-o por comportamento HUMANO, de fato. Não somos “humanos” à toa. Nós temos maquinaria para nos humanizar...
Quando gritamos com nossos filhos, quando batemos neles, quando os agredimos verbalmente e os ofendemos, estamos dando vazão ao nosso lado primitivo e esquecendo o que nos caracteriza como seres humanos: a capacidade de integrar razão à emoção, de ligar neocórtex ao sistema límbico (que comanda as emoções).
Sempre se diz que animais como cachorros e gatos são, muitas vezes, mais afetuosos que alguns pais e mães. Isso não é uma bobagem. Cachorros e gatos também têm neocortex e, portanto, conseguem estabelecer relações afetivas moduladas. Por que, então, negar nossa capacidade de modular nosso estado agressivo?

Em resumo: bater em alguém, adulto ou criança, é nada mais que um sinal de inaptidão de controlar os próprios instintos agressivos. É um atestado de ineficiência. Todos podem aprender a lidar melhor com sua agressividade. Meios físicos para isso – regiões cerebrais -, pelo menos, não nos falta.

No entanto, diversas situações cotidianas são capazes de nos “tirar do sério”, de estimular nosso lado agressivo, primitivo. Um dia de muito trabalho, o acúmulo de problemas, a falta de dinheiro, o trânsito intenso, as muitas contas a vencer, a roupa pra lavar que não para de aumentar, a falta de sono, entre muitas outras situações comuns do cotidiano. Tudo isso é capaz de diminuir nossa tolerância, o que significa nos colocar em maior contato com nosso cérebro primitivo.
Nesse contexto, aparecem os tapas, as palmadas, os beliscões, os gritos e as ameaças, não somente porque nossos filhos assim estimularam, mas porque nós estávamos suscetíveis e vulneráveis. Identificar essas situações nos ajuda a ponderar nosso comportamento.

Se nos sabemos nervosos, irritados, cansados, isso deve nos ajudar a melhor interpretar o comportamento de nossos filhos. Eles não estão jogando as coisas, ou bagunçando, ou falando alto porque querem nos irritar. Eles estão agindo como crianças e precisam de orientação.

Ser sincero é sempre um bom caminho, pois mostra aos nossos filhos que somos como eles, não super heróis, e que temos maus dias. As crianças criadas com afeto são empáticas, conseguem se colocar no lugar dos outros, a dor do outro também dói em si. Um pai e uma mãe que diz: “Filho, mamãe está cansada, ou chateada, agora. Você pode ficar aqui comigo, sem fazer bagunça, e me dar um abraço?” torna-se muito mais próximo e produz um resultado muito melhor e duradouro do que aquele que desconta seu cansaço e chateação sobre quem não tem responsabilidade sobre isso, e que daria muito amor para ajuda-lo, se a ele fosse pedido.
Agir empaticamente, mostrar as fraquezas, mostrar-se humano, pedir um abraço, dizer que se está cansado, com doçura e afeto, aproxima pais e filhos, diminui a hostilidade e cria um clima de cooperação e entendimento.


9) Agressão psicológica é tão grave quanto a física

“Eu desisto de você”.
“Você não faz nada certo”.
“Você é mentiroso!”
“Ah, isso é coisa do fulano. Não se pode esperar nada dele”.
“Você não vai chegar a lugar algum”.
“Você é problemático!”
“Você é impossível!”
“Seu irmão faz, só você que não”

Essas são todas frases muito comuns em alguns círculos familiares e, também, em ambientes escolares. Comuns e muito mais frequentes do que pensamos. E, no entanto, representam ofensa, constrangimento e humilhação.

Se você não sabe, saiba agora: SÃO FORMAS DE VIOLÊNCIA. Capazes de deixar marcas profundas na criança e no adolescente. Marcas que podem alterar para sempre a imagem que eles têm deles mesmos, ou que estão construindo.

E o mais grave de tudo isso é que a maioria dos pais tem grande dificuldade em reconhecer que essas violências verbais também são formas de agredir um filho.

Criança que sofre esse tipo de violência passa a questionar seu valor, a se achar incapaz de ser amada. Ela não entende como aquela pessoa que mais deveria amá-la pode dizer aquelas coisas pra ela, ou ameaçá-la, ou tratá-la com desprezo, ou humilhá-la, ou privá-la de amor. Fica pensando "Por que? Por que?" sem que encontre a resposta. Às vezes, como resposta, convence-se de que é porque ela merece. E talvez cresça achando que merece ser tratada assim. E criança alguma merece crescer pensando isso... (7).

Por que algumas pessoas levam uma vida normal mesmo tendo sido submetidas à violência quando crianças, enquanto outros viram “delinquentes” ou desenvolvem problemas severos? Aí entra uma ideia ainda pouco discutida que é o conceito de resiliência.

Ser resiliente significa ter a habilidade de se adaptar, com êxito, a eventos estressantes, mesmo tendo sido um indivíduo exposto a fatores de risco. Em outras palavras, seria conseguir se recuperar de uma adversidade, se adaptar e ter uma vida significativa e produtiva "a despeito de".

Existem indivíduos mais resilientes, outros menos - ou nada - resilientes. Os primeiros são os "duro na queda”. Os segundos são os mais frágeis, os que adoecem (física ou mentalmente) ao menor estresse, que não têm uma estrutura emocional capaz de aguentar tanta adversidade.

Por que essa diferença? O que faz com que as pessoas sejam assim diferentes nesse aspecto? É, também, uma questão de desenvolvimento neurobiológico, entre tantos outros fatores.

E como saber se uma criança será mais resiliente ou menos resiliente? Como saber se ela se tornará um ativista contra a violência ou um reprodutor da violência, ainda que tenha sido submetida a ela? Não é possível uma resposta simples a essa pergunta.

Mas uma coisa é certa: AMBOS sofrerão com as lembranças da violência a que foram submetidos. Porque ser resiliente não afasta o sofrimento de saber que alguém te tratou mal, te machucou e te fez chorar até dormir (7). Ou seja: o sofrimento estará, de qualquer forma, presente.


10) Não tenha medo de quebrar o ciclo

Outra explicação para o fato de que os castigos físicos sobrevivam até hoje em alguns países é A CULTURA.
Nós reproduzimos a educação que recebemos e, como muitos dos adultos dos dias atuais apanharam quando criança, o ciclo de violência continua a ser reproduzido.

Veja uma explicação à luz da neurociência.
O cérebro que sofre violência muda. Alguns poucos se revoltam e passam a abominar a violência. Mas a maioria, agredida pelos pais em sua infância, passa a naturalizar a violência, que se torna aceitável.
Quando crianças, nosso cérebro não consegue vincular nada de negativo à própria mãe; a amígdala simplesmente não faz essa associação com a própria mãe. Como resultado disso, as crianças que apanham, apesar de terem medo da punição, não acham que a mãe é má ou está errada. E, assim, se torna um adulto que acha que apanhou "porque mereceu". Acha que dar palmadas é certo. Porque se achar errado, significa julgar como errada a ação de sua mãe. Assim, segue o exemplo recebido e passa, agora, a bater em seus próprios filhos, perpetuando o círculo vicioso.

Quebrar o ciclo não significa negar os próprios pais ou cuidadores, quando esses foram violentos. Significa compreender profundamente todos os contextos. E entender, verdadeiramente, que as experiências constroem quem nós somos, mas não determinam quem nós somos. Quando falamos sobre cérebros, nosso tom é de possibilidade, de contribuição, de participação da estrutura neurobiológica em um processo mais amplo. Nunca de determinação.
Nada nos determina.
Nada nos sujeita.
Assim deve ser.
Se fomos criados com violência, não precisamos passar isso para frente. Fazer isso seria reproduzir, sem questionamentos, sem reflexão, sem entendimento, comportamentos que nos fizeram sofrer. O passado passou. Vamos recomeçar.
Criar com amor nos ajuda, também, a ressignificar experiências anteriores.
Faz bem às gerações futuras. Aproxima as atuais. Concilia as gerações passadas.


11) Quando sobreviver não é o bastante...

Citando Dr. Gonzalez novamente: “As crianças necessitam tão desesperadamente do contacto e da atenção dos seus pais, que são mesmo capazes de aceitar os maus tratos como prova de carinho, à falta de melhor. Algumas crianças que não conseguem receber atenção salutar suficiente pelas vias normais chegam a procurar uma atenção patológica por vias anormais. Pensa que o seu filho pediria uma palmada se pudesse ou soubesse como pedir outra coisa, se fosse capaz (em casos mais graves) de conceber a existência de outra coisa? Também espero que algum dia os meus filhos sintam saudades minhas e me recordem com carinho. Espero que não seja por uma palmada ou um pontapé. E o leitor? Que recordação indelével gostaria de deixar?”

Muitas pessoas dizem que apanharam na infância e que, ainda assim, não são más pessoas. Vem daí o clássico: “APANHEI E SOBREVIVI”.

A verdade é que essas pessoas são boas pessoas NÃO PORQUE APANHARAM, mas porque muitas outras coisas boas lhe foram passadas, e isso sim fez a diferença.  
Se ainda mais coisas boas lhes tivessem sido passadas, no lugar da violência, imaginem quão melhores seriam! 
Afinal, ninguém quer que um filho SOBREVIVA. 
O que queremos é que eles vivam bem, vivam felizes, cresçam saudáveis.
Você, que apanhou e diz que sobreviveu, como se sente diante da possibilidade de ser melhor ainda do que se é sem ter experimentado dor?

Vale também reforçar que as crianças não são propriedade dos pais.
Elas estão sob sua responsabilidade, mas precisam ter sua integridade física respeitada.
O castigo físico em crianças é uma forma autoritária de exercer o poder. E, consequentemente, de ensinar às crianças que, em situações de poder, a violência pode ser uma ferramenta útil de controle.

E, então, estaremos, sem perceber, criando os tiranos do futuro. 
E isso é imensamente importante de ser ressaltado, já que algumas pessoas dizem que os tiranos surgem quando não apanham... Está mostrado, portanto, como isso não é verdadeiro. O tirano aprende a tirania pelo exemplo que teve.

Eduque seu filho de maneira a reconhecer sua dignidade. 
Esse é um grande presente para seu futuro em termos de saúde mental, inteligência emocional e social.
É um legado que você deixará.


Nosso sincero agradecimento às mães que contribuíram com relatos espontâneos sobre suas formas de maternar, com o objetivo de ajudar outras famílias e educadores e mostrar que a educação sem violência é totalmente possível.


Referências:

1- Sena, L.M. Educação sem violência. Porque bater não é educar...2013.http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/02/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao.html
2- Hagerty MR. Testing Maslow’s hierarchy of needs: National quality-of-life across time. Social Indicators Research. 46: 249-271. 1999.
3- Gonzalez, C. Besame Mucho, Como criar seus filhos com amor. Coleção Pais Modernos. Editora Pergaminho, 2005.
4- Klein, T.M. Quase 10 anos – A história de uma educação sem palmadas. 2011.http://guiadobebe.uol.com.br/quase-10-anos-a-historia-de-uma-educacao-sem-palmadas/ 5- Shea A, Walsh C, Macmillan H, Steiner M. Child maltreatment and HPA axis dysregulation: relationship to major depressive disorder and post traumatic stress disorder in females.Psychoneuroendocrinology. Feb;30(2):162-78. Review. 2005.
6. Margot Sunderland, The science of parenting. DK Publishing Inc. 2006.
7 – Sena, L.M. Por que rimar amor e dor? 2010. http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2010/11/pra-que-rimar-amor-e-dor.html

terça-feira, 5 de março de 2013

COMO EDUCAR SEM PALMADAS? – 9 pontos importantes que a mãe, o pai, o cuidador, o educador, todo mundo precisa saber - 1ª parte


Compartilhando a primeira parte deste super artigo desenvolvido pela Dra. Ligia e pela Dra. Andreia. Artigo super informativo  que esclarece muito sobre a natureza infantil, e como lidar com elas sem apelar para a agressão ou "palmadinha". Leiam, compreendam e a meditem sobre o assunto!
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Dra. Ligia Moreiras Sena
Dra. Andreia Mortensen

Em post anterior (Educação sem violência. Porque bater não é educar), falamos sobre os estudos que mostram, com frequência cada vez maior, que o uso da palmada como medida de disciplina não é benéfico, ao contrário do que muitos pensam, e que produz prejuízos de diferentes ordens à criança, como maior incidência de agressividade, tristeza, ansiedade, uso de drogas e álcool,  entre outros problemas comportamentais a longo prazo (1).

Agora, vamos além de estudos.
Vamos em direção aos tantos bons exemplos que são dados diariamente por aí. E, claro, reforçados pelo que já conhecemos sobre o desenvolvimento cerebral humano.
Partindo do princípio de que a palmada ainda é, infelizmente, muito utilizada, sabemos que apenas levantar essa discussão não basta. É preciso mostrar que educar sem bater é verdadeiramente possível. Que muitas famílias encontraram um caminho de não violência na criação de seus filhos. Que muitos de nós, pais e mães, conseguimos driblar o sentimento de impotência e transformá-lo em educação ativa, não opressora, respeitosa e afetuosa, que exclui verdadeiramente a violência como ferramenta.

Para isso, organizamos 9 pontos importantes que precisam ser discutidos por quem quer mudar a forma de agir e por quem quer entender melhor sobre as consequências da violência contra a criança, da palmada à surra, passando pela violência emocional e psíquica. É um texto que conta com a colaboração de muitas mães que ofereceram espontaneamente seus relatos, na tentativa de compartilhar suas experiências respeitosas de criação dos filhos e, assim, ajudar outras famílias.

Como, obviamente, é um texto muito longo, nós o dividimos em duas partes.

Nesta primeira parte, publicada hoje, trataremos dos seguintes temas: 

1) A criança é essencialmente boa. Entender as fases de crescimento e desenvolvimento te 

ajudará a obter ferramentas para educar em todas idades.

 2) Use o diálogo sempre.

 3) Corrija adequadamente, use a relação “erro-consequência” e não “erro-punição”.

 4) Use reforços positivos.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, trataremos dos demais tópicos, que são:


5) Vai doer mais nele que em você. Sempre.
 
6) De onde vem a agressividade? Como reconhecer sinais de descontrole?
 
7) Agressão psicológica é tão grave quanto a física
 
8) Não tenha medo de quebrar o ciclo
 
9) Quando sobreviver não é o bastante...



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 Se não podemos e não devemos, nunca, em nenhuma hipótese, dar palmadas em nossos filhos - ou usar qualquer outra forma de violência - como vamos então discipliná-los?
 Antes de partir para exemplos práticos, no entanto, é preciso uma reflexão.

Afinal, o que é educar? É apenas ensinar a obedecer?

Não.
Educar é transmitir valores, estimular o comportamento ético, empático, solidário, reflexivo, coisas que a criança vai levar para a vida inteira.
É ensinar a tomar boas decisões em situações de conflito.
É ensinar empatia.
É exercer o diálogo.
É reconhecer e elogiar os bons comportamentos.
É conhecer as fases de crescimento para entender e lidar melhor com as diversas situações na jornada da educação.
É, sobretudo, dar bons exemplos.

Vamos, portanto, falar sobre nossos filhos?
Vamos falar sobre características fundamentais, que tantas vezes nos passam batido em função da correria da vida cotidiana, dos tantos problemas que temos que resolver, das questões como alimentação, desfralde, escola, amiguinhos, saltos de desenvolvimento, conflitos familiares?
Vamos falar das crianças?
Vamos lá.

1) A criança é essencialmente boa. Entender as fases de crescimento e desenvolvimento te ajudará a obter ferramentas para educar em todas as idades.

As crianças são boas em sua essência. 
Suas necessidades afetivas são tão importantes quanto as físicas. Nosso bem estar, como seres humanos, está intimamente ligado à capacidade de suprir as necessidades fisiológicas, de segurança, amor, relações afetivas, autoestima e auto-realização (2).
Nós, pais, devemos atender a todas essas necessidades.
Não é suficiente atender apenas as necessidades físicas e ignorar seus estados emocionais. E é isso o que se faz quando atentamos para suas necessidades mais imediatas mas infligimos dor, humilhamos e os confundimos, estados associados ao uso das palmadas no dia-a-dia.
Como bem explica Dr. Carlos Gonzalez, no livro Besame Mucho(3): 
“Crianças criadas com carinho e respeito são carinhosas e respeitadoras. Não durante todo o tempo, claro, mas durante a maior parte do tempo. Essa é a tendência natural, pois, no ser humano, a cooperação com outros membros do grupo é tão natural como andar e falar. Para conseguir que as crianças se tornem agressivas, temos de empurrá-las de alguma maneira para afastá-las do caminho habitual. As crianças educadas com gritos gritam. As crianças educadas com palmadas também batem nos outros”.
Então, ao desconstruir o mito de que toda criança é um serzinho terrível e impossível de controlar e ao abraçar a ideia de que elas são abertas ao diálogo e nos observam o tempo todo (ou seja, que nosso EXEMPLO é a ferramenta mais poderosa na educação), abrimos as portas para uma educação baseada na disciplina positiva. Para ideias e 10 lições importantíssimas sobre educação sem palmadas, veja a referência 4.

Nesse sentido é importante entender que um bebê de dois anos, por exemplo, que faz birra e se joga no chão como resultado de uma frustração, provavelmente não está agindo assim para aborrecer seus pais. Ele o faz porque não tem elementos para expressar seus sentimentos de outra forma. Aquela criança precisa de ajuda para sair daquele estado de hiper-agitação, pois está fora de sua rotina, ou com fome, ou super estimulada, ou necessitando de outro tipo de apoio.
Ela não precisa de repreensão.
Repreender significa interpretar o comportamento dela como uma malcriação quando, na verdade, ela está apenas expressando uma frustração, com as ferramentas de que dispõe.


2) Use o diálogo sempre

Muitos pais alegam que usam a palmada “em último caso”, quando a conversa não surte mais efeito.  Ou quando as crianças estão em processo de “birra”, como para dar um susto e suspender, assim, aquele comportamento.
No entanto, é preciso entender que, muitas vezes, uma conversa só não é suficiente. É preciso repetir, tornar a repetir muitas e muitas vezes, numa linguagem acessível à criança de acordo com sua idade. Por isso, paciência é sempre fundamental.

Apesar de quase irresistível, o ideal é economizar no NÃOe focar no SIM.
Não, não estamos falando de deixar tudo a partir de agora.
Estamos falando de oferecer OPÇÕES.
Ao invés de simplesmente proibir algo – e dar uma palmada no caso da criança não obedecer – redirecione-a para outra atividade.
Dar palmada quando a criança faz algo que foi proibido não ensina, não educa, não orienta, apenas pune momentaneamente.

Veja esse exemplo.
Se nós dissermos a você “NÃO PENSE EM MAÇÔ, no que você pensará imediatamente?
É por isso que quando você diz “FILHA, NÃO PULE NO SOFÁ”, ela continua a pular...
Mas se você disser “Filha, venha pular aqui nesse tapete, ou nessa pilha de travesseiros, ou nessas folhas”, isso fará mais sentido a ela.
Se você disser: “Filha, venha cá, vamos dançar juntas!”, então, melhor ainda: a energia da criança que está pulando no sofá será direcionada para uma atividade feita junto à mãe, ao pai, ao cuidador, com empatia e amor.

Outro exemplo.
Ao invés de “Menino, você não pode ver TV antes de fazer a lição de casa!”, você pode dizer: “Quer ver tv? Tudo bem, mas primeiro vamos fazer a lição de casa”. Menos NÃOs, mais opções.

Veja a explicação dessa mãe: 
Aqui a pequena tem 10 meses e minhas batalhas tem sido: não tirar o chapéu quando vamos passear, não colocar coisas muito pequenas na boca (como pedrinhas), não pegar coisas na casa dos outros.O que eu comecei a fazer foi formular as frases sem o "não". Porque percebi que é realmente confuso pra criança. A gente vai no automático e já grita "não mexe aí" e não percebe que tem várias informações implícitas nessa frase que só são óbvias pra gente!Por exemplo o "aí" quer dizer o quê? Isso é pronome! Quer dizer que substitui algo na frase. Ou seja, a gente pede pra não mexer em algo que a gente sabe o que é mas que nem especificou pra criança o que é.E o "não"? Significa que você vai inverter o significado do que vem na frente. A gente manda fazer o contrário de "mexer", alque que a gente nem disse qual é e espera que a criança adivinhe.O que exatamente significa "não mexer"? É difícil explicar sem usar o não. E se a gente que é fluente na língua tem dificuldade em explicar, como é que eles vão saber se nem falam direito ainda??Dizer "não mexe aí" é exatamente igual a "vai, mexe aí" pra pequena cabecinha deles.Depois que descobri isso parei de usar o "não" em frase de comando.Uso "o chapéu fica na sua cabeça" ao invés de "não tira o chapéu".Uso "a pedra/bola de gude/moeda (o que quer que seja pequenininho que ela SEMPRE acha e quer por na boca) fica fora da sua boca" e impeço de colocar na boca se for necessário.Uso "sua mão fica longe desse enfeite/bolsa/vela (o que quer que seja que ela quer pegar na casa de alguém)". E aí eu redireciono, dou outra alternativa se possível.

Ainda, sobre a fase dos 2 anos, é necessário entender que a vontade da criança de fazer alguma coisa é MUITO grande, maior do que a capacidade dela de desviar sua atenção. A criança quer, quer, quer, quer. Então, se ela está para fazer algo perigoso, vá você mesma e a retire do local, oferecendo outra alternativa.

Outra mãe diz: 
“Minha filha tem 2 anos e volta e meia dá chilique. Dependendo do lugar, da situacão, do motivo, eu ajo de uma forma diferente.
Abaixo-me na frente dela, seguro-a firme pelos bracinhos, olho nos olhos e converso com o tom de voz mais calmo possível. Depois da conversa, um abraço funciona que é uma beleza :) Se estamos no supermercado, simplesmente pego-a no colo e saio andando.
Se ela está exigindo minha atenção mas eu estou lendo um livro, o livro vai obviamente esperar a hora em que ela estiver na caminha. Dou a mão a ela e deixo ela me mostrar o que ela quer fazer. Do contrário, lógico que ela vai ficar frustrada e vai rolar um chiliquinho. Se estou fazendo comida e não posso dar mais atenção, coloco uma cadeira pra ela ficar em pé do meu lado, acompanhando o processo. Aproveito para explicar o que estou fazendo, e o que cada ingrediente é”.
 Então, tenha em mente o seguinte: quando as orientações e limites vêm do diálogo, a criança compreende que esse tipo de abordagem se aplica a tudo quanto é tipo de situação. Ela aprende que pode questionar uma “ordem” e que terá uma explicação e não uma repreensão. Ela aprende que não será punida fisicamente por ser curiosa e por explorar o mundo à sua volta.
  
Outra mãe compartilha sua experiência: 
Acho que dar duas opções viáveis para criança também vale.Por exemplo, está chovendo e logicamente não quero que ele saia na chuva. E ele está louco pra ir lá. Então, dou duas outras opções viáveis como "ler livrinhos" ou "brincar na brinquedoteca", porque está chovendo e lá fora hoje não vai dar...Ou, se preciso ir ao mercadinho e sei que ele está doido para passear, faço um combinado: "que tal irmos passear na praça?". E quando ele concorda, digo "então depois da praça a mamãe precisa passar no mercadinho, tudo bem?". Se ele diz "não", o que é raro, porque já tem seu desejo atendido antecipadamente, então eu insisto "mas a mamãe precisa, você pode ir comigo?" Pronto, ele ama ajudar e 99,9% das vezes concorda em ir.
 Diálogo é sempre melhor do que bater, porque as palmadas nem sempre levam à criança o motivo delas. A criança sabe, apenas, que não quer voltar a levá-las. Quando ela deixa de fazer aquilo que foi punido com palmada, apenas deixou por medo, não por entendimento. Quando repete, foi porque perdeu o medo e precisará de palmadas mais intensas ou frequentes. E, quando a família perceber, está mergulhada em uma rotina violenta de educação da qual não consegue sair.

Opte sempre por falar calmamente com a criança, explicando-lhe o que fez mal e qual a melhor forma de proceder, usando sempre linguagem e exemplos apropriados à sua idade. Algo simples para uma criança de 4 anos é:
“A casa fica bagunçada quando você deixa todos os livros no chão. Da próxima vez, a mamãe vai gostar mais de vê-los arrumados nos lugares certos”.
Levante e AJUDE a criança a arrumar a bagunça.
Participe e dê o exemplo.
Trabalhem em conjunto.

Outro argumento utilizado para o uso das palmadas é “garantir a segurança física da criança, quando elas ainda não entendem o perigo”, como garantir que ela não mexa na tomada, que não atravesse a rua, que não pule da varanda, e assim por diante.
No entanto, o papel do adulto é proteger a criança dos perigos.
Manifestar essa proteção na forma de castigo físico é, portanto, um contrassenso.
Evita-se um mal com outro.
Uma criança que é tratada sempre com carinho e gentileza, ao receber uma reprimenda ríspida, ficará sempre muito surpresa. Se, associada a essa reprimenda, ela receber uma explicação sobre o motivo, o resultado será muito melhor do que o obtido com o uso de palmadas.
E lembre-se sempre! Guarde os ‘NÃOS’ e abuse do ‘SIM’, oferecendo alternativas ao comportamento indesejado sempre que possível.

Além disso, não faça da sua casa uma tortura chinesa onde quase tudo é proibido - as crianças  PRECISAM TER espaços livres para brincar, explorar. Então, guarde o que for perigoso, cubra as tomadas. Separe um espaço na cozinha com panelas e utensílios de madeira e deixa-a ‘cozinhar’ contigo.
Uma mãe compartilha como lida com essa questão: 
Minha bebe joga a comida longe na hora da refeição, e espera que eu pegue de volta sempre e coloque no prato de novo, mas agora não pego mais não, ela já entende que não é para jogar no chão. Falo que se ela joga no chão não da mais para comer, repito sempre frases simples e gesticulando bastante como "Chão sujo (((cacaca))) não pode comer mais”.Já teve choro, birra, mas fazer o que, fica sem mesmo!Mas é sempre a mesma historia, uma hora ela entende.Outro exemplo é quando ela pega algo que não é para pegar (principalmente porque fica fora de lugar) tipo minha carteira, a carteira do papai, documentos, faturas etc.Sempre que a pego no ato, digo: "Nossa, você achou para a mamãe, obrigada filha!" e ela me dá na maior alegria.
Finalmente, outra situação usada para justificar palmadas é quando a criança agride um irmãozinho menor.
Aqui, vale novamente reforçar: criança aprende com exemplo e empatia. Como é, então, que ela irá aprender que não se deve bater no menor quando seu próprio pai dá o exemplo contrário, batendo nela, que é tão menor que ele? 

Uma mãe oferece uma dica: 
“Se os irmãos estão brigando, se há ciumes com o bebê, além de dizer que não pode bater porque machuca, diga que são amigos, que se amam e que tem que fazer carinho, pegue a maozinha e coloque para fazer carinho. Com o tempo, param de se bater”.

3) Corrija adequadamente, use a relação “erro-consequência” e não “erro-punição”

 Quando um adulto comete um erro, ele é punido com as consequências de seu próprio ato.
Aplique a mesma lógica na correção infantil: ao invés de punir a criança que erra com palmada, chinelada, beliscões ou outro tipo de castigo físico, introduza a ideia de causa e consequência.
Sujou o sofá? Ajude a limpar.
Quebrou o brinquedo? Mostre que ele não funcionará mais.
Jogou a bola em lugar inacessível? Mostre que agora não será mais possível brincar com ela.
Tirou todas as roupas do armário? Mostre que agora ela precisará guardar tudo.
  

4) Use reforços positivos

Procure elogiar mais do que criticar. 
Elogios induzem a criança a continuar com o bom comportamento. 
Essa é uma forma saudável e não violenta de estabelecer bons comportamentos a longo prazo.
Ignorar o mau-comportamento do seu filho e dar bastante atenção quando ele se comporta bem dá um ótimo resultado.
Veja essa experiência, compartilhada por uma mãe: 
“Elogio meu filho toda vez que leva seu prato à pia, depois das refeições.Ao mesmo tempo explico que todo mundo em nossa família colabora, todos colocam os pratos na pia, e revezamos quem os lava. Ele ainda não lava (tem 8 anos), mas já entende bem o conceito de que todo mundo tem sua parte na família.
Além de levar o pratinho para a pia, ajuda a dobrar as roupas e as guarda nas gavetas todos os dias. E conforme vai crescendo, vai ganhando novas responsabilidades’.
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