terça-feira, 5 de março de 2013

COMO EDUCAR SEM PALMADAS? – 9 pontos importantes que a mãe, o pai, o cuidador, o educador, todo mundo precisa saber - 1ª parte


Compartilhando a primeira parte deste super artigo desenvolvido pela Dra. Ligia e pela Dra. Andreia. Artigo super informativo  que esclarece muito sobre a natureza infantil, e como lidar com elas sem apelar para a agressão ou "palmadinha". Leiam, compreendam e a meditem sobre o assunto!
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Dra. Ligia Moreiras Sena
Dra. Andreia Mortensen

Em post anterior (Educação sem violência. Porque bater não é educar), falamos sobre os estudos que mostram, com frequência cada vez maior, que o uso da palmada como medida de disciplina não é benéfico, ao contrário do que muitos pensam, e que produz prejuízos de diferentes ordens à criança, como maior incidência de agressividade, tristeza, ansiedade, uso de drogas e álcool,  entre outros problemas comportamentais a longo prazo (1).

Agora, vamos além de estudos.
Vamos em direção aos tantos bons exemplos que são dados diariamente por aí. E, claro, reforçados pelo que já conhecemos sobre o desenvolvimento cerebral humano.
Partindo do princípio de que a palmada ainda é, infelizmente, muito utilizada, sabemos que apenas levantar essa discussão não basta. É preciso mostrar que educar sem bater é verdadeiramente possível. Que muitas famílias encontraram um caminho de não violência na criação de seus filhos. Que muitos de nós, pais e mães, conseguimos driblar o sentimento de impotência e transformá-lo em educação ativa, não opressora, respeitosa e afetuosa, que exclui verdadeiramente a violência como ferramenta.

Para isso, organizamos 9 pontos importantes que precisam ser discutidos por quem quer mudar a forma de agir e por quem quer entender melhor sobre as consequências da violência contra a criança, da palmada à surra, passando pela violência emocional e psíquica. É um texto que conta com a colaboração de muitas mães que ofereceram espontaneamente seus relatos, na tentativa de compartilhar suas experiências respeitosas de criação dos filhos e, assim, ajudar outras famílias.

Como, obviamente, é um texto muito longo, nós o dividimos em duas partes.

Nesta primeira parte, publicada hoje, trataremos dos seguintes temas: 

1) A criança é essencialmente boa. Entender as fases de crescimento e desenvolvimento te 

ajudará a obter ferramentas para educar em todas idades.

 2) Use o diálogo sempre.

 3) Corrija adequadamente, use a relação “erro-consequência” e não “erro-punição”.

 4) Use reforços positivos.

Na segunda parte, a ser publicada ainda nesta semana, trataremos dos demais tópicos, que são:


5) Vai doer mais nele que em você. Sempre.
 
6) De onde vem a agressividade? Como reconhecer sinais de descontrole?
 
7) Agressão psicológica é tão grave quanto a física
 
8) Não tenha medo de quebrar o ciclo
 
9) Quando sobreviver não é o bastante...



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 Se não podemos e não devemos, nunca, em nenhuma hipótese, dar palmadas em nossos filhos - ou usar qualquer outra forma de violência - como vamos então discipliná-los?
 Antes de partir para exemplos práticos, no entanto, é preciso uma reflexão.

Afinal, o que é educar? É apenas ensinar a obedecer?

Não.
Educar é transmitir valores, estimular o comportamento ético, empático, solidário, reflexivo, coisas que a criança vai levar para a vida inteira.
É ensinar a tomar boas decisões em situações de conflito.
É ensinar empatia.
É exercer o diálogo.
É reconhecer e elogiar os bons comportamentos.
É conhecer as fases de crescimento para entender e lidar melhor com as diversas situações na jornada da educação.
É, sobretudo, dar bons exemplos.

Vamos, portanto, falar sobre nossos filhos?
Vamos falar sobre características fundamentais, que tantas vezes nos passam batido em função da correria da vida cotidiana, dos tantos problemas que temos que resolver, das questões como alimentação, desfralde, escola, amiguinhos, saltos de desenvolvimento, conflitos familiares?
Vamos falar das crianças?
Vamos lá.

1) A criança é essencialmente boa. Entender as fases de crescimento e desenvolvimento te ajudará a obter ferramentas para educar em todas as idades.

As crianças são boas em sua essência. 
Suas necessidades afetivas são tão importantes quanto as físicas. Nosso bem estar, como seres humanos, está intimamente ligado à capacidade de suprir as necessidades fisiológicas, de segurança, amor, relações afetivas, autoestima e auto-realização (2).
Nós, pais, devemos atender a todas essas necessidades.
Não é suficiente atender apenas as necessidades físicas e ignorar seus estados emocionais. E é isso o que se faz quando atentamos para suas necessidades mais imediatas mas infligimos dor, humilhamos e os confundimos, estados associados ao uso das palmadas no dia-a-dia.
Como bem explica Dr. Carlos Gonzalez, no livro Besame Mucho(3): 
“Crianças criadas com carinho e respeito são carinhosas e respeitadoras. Não durante todo o tempo, claro, mas durante a maior parte do tempo. Essa é a tendência natural, pois, no ser humano, a cooperação com outros membros do grupo é tão natural como andar e falar. Para conseguir que as crianças se tornem agressivas, temos de empurrá-las de alguma maneira para afastá-las do caminho habitual. As crianças educadas com gritos gritam. As crianças educadas com palmadas também batem nos outros”.
Então, ao desconstruir o mito de que toda criança é um serzinho terrível e impossível de controlar e ao abraçar a ideia de que elas são abertas ao diálogo e nos observam o tempo todo (ou seja, que nosso EXEMPLO é a ferramenta mais poderosa na educação), abrimos as portas para uma educação baseada na disciplina positiva. Para ideias e 10 lições importantíssimas sobre educação sem palmadas, veja a referência 4.

Nesse sentido é importante entender que um bebê de dois anos, por exemplo, que faz birra e se joga no chão como resultado de uma frustração, provavelmente não está agindo assim para aborrecer seus pais. Ele o faz porque não tem elementos para expressar seus sentimentos de outra forma. Aquela criança precisa de ajuda para sair daquele estado de hiper-agitação, pois está fora de sua rotina, ou com fome, ou super estimulada, ou necessitando de outro tipo de apoio.
Ela não precisa de repreensão.
Repreender significa interpretar o comportamento dela como uma malcriação quando, na verdade, ela está apenas expressando uma frustração, com as ferramentas de que dispõe.


2) Use o diálogo sempre

Muitos pais alegam que usam a palmada “em último caso”, quando a conversa não surte mais efeito.  Ou quando as crianças estão em processo de “birra”, como para dar um susto e suspender, assim, aquele comportamento.
No entanto, é preciso entender que, muitas vezes, uma conversa só não é suficiente. É preciso repetir, tornar a repetir muitas e muitas vezes, numa linguagem acessível à criança de acordo com sua idade. Por isso, paciência é sempre fundamental.

Apesar de quase irresistível, o ideal é economizar no NÃOe focar no SIM.
Não, não estamos falando de deixar tudo a partir de agora.
Estamos falando de oferecer OPÇÕES.
Ao invés de simplesmente proibir algo – e dar uma palmada no caso da criança não obedecer – redirecione-a para outra atividade.
Dar palmada quando a criança faz algo que foi proibido não ensina, não educa, não orienta, apenas pune momentaneamente.

Veja esse exemplo.
Se nós dissermos a você “NÃO PENSE EM MAÇÔ, no que você pensará imediatamente?
É por isso que quando você diz “FILHA, NÃO PULE NO SOFÁ”, ela continua a pular...
Mas se você disser “Filha, venha pular aqui nesse tapete, ou nessa pilha de travesseiros, ou nessas folhas”, isso fará mais sentido a ela.
Se você disser: “Filha, venha cá, vamos dançar juntas!”, então, melhor ainda: a energia da criança que está pulando no sofá será direcionada para uma atividade feita junto à mãe, ao pai, ao cuidador, com empatia e amor.

Outro exemplo.
Ao invés de “Menino, você não pode ver TV antes de fazer a lição de casa!”, você pode dizer: “Quer ver tv? Tudo bem, mas primeiro vamos fazer a lição de casa”. Menos NÃOs, mais opções.

Veja a explicação dessa mãe: 
Aqui a pequena tem 10 meses e minhas batalhas tem sido: não tirar o chapéu quando vamos passear, não colocar coisas muito pequenas na boca (como pedrinhas), não pegar coisas na casa dos outros.O que eu comecei a fazer foi formular as frases sem o "não". Porque percebi que é realmente confuso pra criança. A gente vai no automático e já grita "não mexe aí" e não percebe que tem várias informações implícitas nessa frase que só são óbvias pra gente!Por exemplo o "aí" quer dizer o quê? Isso é pronome! Quer dizer que substitui algo na frase. Ou seja, a gente pede pra não mexer em algo que a gente sabe o que é mas que nem especificou pra criança o que é.E o "não"? Significa que você vai inverter o significado do que vem na frente. A gente manda fazer o contrário de "mexer", alque que a gente nem disse qual é e espera que a criança adivinhe.O que exatamente significa "não mexer"? É difícil explicar sem usar o não. E se a gente que é fluente na língua tem dificuldade em explicar, como é que eles vão saber se nem falam direito ainda??Dizer "não mexe aí" é exatamente igual a "vai, mexe aí" pra pequena cabecinha deles.Depois que descobri isso parei de usar o "não" em frase de comando.Uso "o chapéu fica na sua cabeça" ao invés de "não tira o chapéu".Uso "a pedra/bola de gude/moeda (o que quer que seja pequenininho que ela SEMPRE acha e quer por na boca) fica fora da sua boca" e impeço de colocar na boca se for necessário.Uso "sua mão fica longe desse enfeite/bolsa/vela (o que quer que seja que ela quer pegar na casa de alguém)". E aí eu redireciono, dou outra alternativa se possível.

Ainda, sobre a fase dos 2 anos, é necessário entender que a vontade da criança de fazer alguma coisa é MUITO grande, maior do que a capacidade dela de desviar sua atenção. A criança quer, quer, quer, quer. Então, se ela está para fazer algo perigoso, vá você mesma e a retire do local, oferecendo outra alternativa.

Outra mãe diz: 
“Minha filha tem 2 anos e volta e meia dá chilique. Dependendo do lugar, da situacão, do motivo, eu ajo de uma forma diferente.
Abaixo-me na frente dela, seguro-a firme pelos bracinhos, olho nos olhos e converso com o tom de voz mais calmo possível. Depois da conversa, um abraço funciona que é uma beleza :) Se estamos no supermercado, simplesmente pego-a no colo e saio andando.
Se ela está exigindo minha atenção mas eu estou lendo um livro, o livro vai obviamente esperar a hora em que ela estiver na caminha. Dou a mão a ela e deixo ela me mostrar o que ela quer fazer. Do contrário, lógico que ela vai ficar frustrada e vai rolar um chiliquinho. Se estou fazendo comida e não posso dar mais atenção, coloco uma cadeira pra ela ficar em pé do meu lado, acompanhando o processo. Aproveito para explicar o que estou fazendo, e o que cada ingrediente é”.
 Então, tenha em mente o seguinte: quando as orientações e limites vêm do diálogo, a criança compreende que esse tipo de abordagem se aplica a tudo quanto é tipo de situação. Ela aprende que pode questionar uma “ordem” e que terá uma explicação e não uma repreensão. Ela aprende que não será punida fisicamente por ser curiosa e por explorar o mundo à sua volta.
  
Outra mãe compartilha sua experiência: 
Acho que dar duas opções viáveis para criança também vale.Por exemplo, está chovendo e logicamente não quero que ele saia na chuva. E ele está louco pra ir lá. Então, dou duas outras opções viáveis como "ler livrinhos" ou "brincar na brinquedoteca", porque está chovendo e lá fora hoje não vai dar...Ou, se preciso ir ao mercadinho e sei que ele está doido para passear, faço um combinado: "que tal irmos passear na praça?". E quando ele concorda, digo "então depois da praça a mamãe precisa passar no mercadinho, tudo bem?". Se ele diz "não", o que é raro, porque já tem seu desejo atendido antecipadamente, então eu insisto "mas a mamãe precisa, você pode ir comigo?" Pronto, ele ama ajudar e 99,9% das vezes concorda em ir.
 Diálogo é sempre melhor do que bater, porque as palmadas nem sempre levam à criança o motivo delas. A criança sabe, apenas, que não quer voltar a levá-las. Quando ela deixa de fazer aquilo que foi punido com palmada, apenas deixou por medo, não por entendimento. Quando repete, foi porque perdeu o medo e precisará de palmadas mais intensas ou frequentes. E, quando a família perceber, está mergulhada em uma rotina violenta de educação da qual não consegue sair.

Opte sempre por falar calmamente com a criança, explicando-lhe o que fez mal e qual a melhor forma de proceder, usando sempre linguagem e exemplos apropriados à sua idade. Algo simples para uma criança de 4 anos é:
“A casa fica bagunçada quando você deixa todos os livros no chão. Da próxima vez, a mamãe vai gostar mais de vê-los arrumados nos lugares certos”.
Levante e AJUDE a criança a arrumar a bagunça.
Participe e dê o exemplo.
Trabalhem em conjunto.

Outro argumento utilizado para o uso das palmadas é “garantir a segurança física da criança, quando elas ainda não entendem o perigo”, como garantir que ela não mexa na tomada, que não atravesse a rua, que não pule da varanda, e assim por diante.
No entanto, o papel do adulto é proteger a criança dos perigos.
Manifestar essa proteção na forma de castigo físico é, portanto, um contrassenso.
Evita-se um mal com outro.
Uma criança que é tratada sempre com carinho e gentileza, ao receber uma reprimenda ríspida, ficará sempre muito surpresa. Se, associada a essa reprimenda, ela receber uma explicação sobre o motivo, o resultado será muito melhor do que o obtido com o uso de palmadas.
E lembre-se sempre! Guarde os ‘NÃOS’ e abuse do ‘SIM’, oferecendo alternativas ao comportamento indesejado sempre que possível.

Além disso, não faça da sua casa uma tortura chinesa onde quase tudo é proibido - as crianças  PRECISAM TER espaços livres para brincar, explorar. Então, guarde o que for perigoso, cubra as tomadas. Separe um espaço na cozinha com panelas e utensílios de madeira e deixa-a ‘cozinhar’ contigo.
Uma mãe compartilha como lida com essa questão: 
Minha bebe joga a comida longe na hora da refeição, e espera que eu pegue de volta sempre e coloque no prato de novo, mas agora não pego mais não, ela já entende que não é para jogar no chão. Falo que se ela joga no chão não da mais para comer, repito sempre frases simples e gesticulando bastante como "Chão sujo (((cacaca))) não pode comer mais”.Já teve choro, birra, mas fazer o que, fica sem mesmo!Mas é sempre a mesma historia, uma hora ela entende.Outro exemplo é quando ela pega algo que não é para pegar (principalmente porque fica fora de lugar) tipo minha carteira, a carteira do papai, documentos, faturas etc.Sempre que a pego no ato, digo: "Nossa, você achou para a mamãe, obrigada filha!" e ela me dá na maior alegria.
Finalmente, outra situação usada para justificar palmadas é quando a criança agride um irmãozinho menor.
Aqui, vale novamente reforçar: criança aprende com exemplo e empatia. Como é, então, que ela irá aprender que não se deve bater no menor quando seu próprio pai dá o exemplo contrário, batendo nela, que é tão menor que ele? 

Uma mãe oferece uma dica: 
“Se os irmãos estão brigando, se há ciumes com o bebê, além de dizer que não pode bater porque machuca, diga que são amigos, que se amam e que tem que fazer carinho, pegue a maozinha e coloque para fazer carinho. Com o tempo, param de se bater”.

3) Corrija adequadamente, use a relação “erro-consequência” e não “erro-punição”

 Quando um adulto comete um erro, ele é punido com as consequências de seu próprio ato.
Aplique a mesma lógica na correção infantil: ao invés de punir a criança que erra com palmada, chinelada, beliscões ou outro tipo de castigo físico, introduza a ideia de causa e consequência.
Sujou o sofá? Ajude a limpar.
Quebrou o brinquedo? Mostre que ele não funcionará mais.
Jogou a bola em lugar inacessível? Mostre que agora não será mais possível brincar com ela.
Tirou todas as roupas do armário? Mostre que agora ela precisará guardar tudo.
  

4) Use reforços positivos

Procure elogiar mais do que criticar. 
Elogios induzem a criança a continuar com o bom comportamento. 
Essa é uma forma saudável e não violenta de estabelecer bons comportamentos a longo prazo.
Ignorar o mau-comportamento do seu filho e dar bastante atenção quando ele se comporta bem dá um ótimo resultado.
Veja essa experiência, compartilhada por uma mãe: 
“Elogio meu filho toda vez que leva seu prato à pia, depois das refeições.Ao mesmo tempo explico que todo mundo em nossa família colabora, todos colocam os pratos na pia, e revezamos quem os lava. Ele ainda não lava (tem 8 anos), mas já entende bem o conceito de que todo mundo tem sua parte na família.
Além de levar o pratinho para a pia, ajuda a dobrar as roupas e as guarda nas gavetas todos os dias. E conforme vai crescendo, vai ganhando novas responsabilidades’.

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