quinta-feira, 7 de março de 2013

COMO EDUCAR SEM PALMADAS? - Parte 2

Continuando a belíssima explanação sobre o assunto de como educar sem bater nos nossos filhos. Texto da Dra. Ligia e Dra. Andreia. Leiam e reflitam!
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Essa é a segunda parte de um texto que traz uma rica discussão a respeito da pergunta: COMO  EDUCAR SEM PALMADAS?
À primeira parte, publicada em postagem anterior, demos o título de COMO EDUCAR SEM PALMADAS? - 9 pontos importantes que a mãe, o pai, o cuidador, todo mundo precisa saber. Mas decidimos acrescentar dois novos tópicos importantes à discussão e, portanto, trataremos de 11 pontos no total.

Eles são:

1) A criança é essencialmente boa. Entender as fases de crescimento e desenvolvimento te ajudará a obter ferramentas para educar em todas as idades.
2) Use o diálogo sempre.
3) Corrija adequadamente, use a relação "erro-consequência" e não "erro-punição".
4) Use reforços positivos
5) Birras: por que acontecem? Entender suas origens ajudará a lidar com elas. (incluído)
6) Como não criar um "bully". (incluído)
7) Vai doer mais nele que em você. Sempre.
8) De onde vem a agressividade? Como reconhecer sinais de descontrole?
9) Agressão psicológica é tão grave quanto agressão física
10) Não tenha medo de quebrar o ciclo
11) Quando sobreviver não é o bastante...

No post anterior, falamos sobre os quatro primeiros. Agora, vamos continuar.
Esperamos que seja útil a todos e que estimule mães e pais que ainda usam a violência como ferramenta a perceber que uma educação mais afetuosa e sem violência contribui para o crescimento e desenvolvimento de crianças mais saudáveis e que se sentem mais amadas. 
Que é, afinal, o que toda mãe e pai deseja.

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5) Birras: por que acontecem? Entender suas origens ajudará a lidar com elas

Crianças fazem birra. Se ainda não fizeram, uma hora irão fazer. Algumas vezes, mesmo diante de fatos tão triviais como não poder comer um doce antes do almoço, ou a recusa dos pais em comprar um brinquedo.

Uma das explicações para essas “explosões comportamentais” é: seus cérebros não estão completamente desenvolvidos e podem, com frequência, entrar em “curto-circuito”. Para entender como isso é possível, vamos falar um pouquinho sobre nosso cérebro.

Existem duas grandes áreas cerebrais, as quais vamos chamar de “cérebro reptiliano” e “cérebro mamífero”. O reptiliano é a parte mais antiga do cérebro humano, que sofreu poucas modificações ao longo da evolução, e é basicamente igual em todos os vertebrados. Essa região regula funções básicas relacionadas à sobrevivência, como fome, respiração e digestão, além de reações instintivas de defesa e ataque. Já o cérebro mamífero é mais complexo e foi sendo moldado ao longo da evolução. Está relacionado a habilidades de convivência, à construção de relações sociais, à regulação de sentimentos e reações emocionais como raiva, medo e estresse, pensamentos racionais, capacidade de solucionar problemas, criatividade e imaginação.

O bebê já nasce com a parte reptiliana, que se desenvolve ainda intra-útero. Mas o cérebro mamífero, racional (composto por neocórtex, lobos frontais) vai se desenvolvendo durante o crescimento da criança, atingindo a maturidade por volta dos 25 anos de idade. Sabendo disso, fica mais fácil compreender o porquê das crianças não conseguirem demonstrar alguns comportamentos de maneira precisa. Esperar uma reação emocional equilibrada de uma criança é como procurar minhoca no asfalto, é missão fadada à frustração, pois é simplesmente impossível esperar controle emocional, habilidade para tomar decisões equilibradas, noções claras de ética, de alguém que ainda não possui os “equipamentos” necessários a isso... Da mesma maneira, sua capacidade de compreender as relações de ação e reação, ato e consequência, também estão em pleno desenvolvimento, ainda não acabadas.

Há seis desencadeadores de “mau comportamento” – as tais birras – em crianças:
- cansaço, tédio, fome
- imaturidade cerebral
- necessidades psicológicas não atendidas
- estresse dos pais
- emoções intensas
- estilo de educar dos pais que ativa os sistemas de alarme na parte inferior do cérebro da criança (veja mais adiante, no item “Como não criar um bully”)

Uma criança que está tendo uma birra por angústia, está vivenciando dor genuína e precisa de muita calma e compaixão por parte de sua mãe, pai ou cuidador. Ignorar ou punir a angústia pode ser bastante prejudicial. Assim, procure identificar o tipo de birra e agir de acordo.

Se a criança estiver entediada (ela está gritando e jogando coisas no chão), aumente o tempo que passam brincando juntos. Ofereça alternativas de brincadeiras interessantes. Procure elaborar situações lúdicas no dia a dia.

Se a criança estiver frustrada (quis algo que não pode obter, por exemplo), ajude-a a encontrar as palavras, a expressar seus sentimentos da melhor maneira. Mostre empatia.

Se ela estiver desapontada, ajude-a a lidar com seus sentimentos de dor, não os ignore.

Se seu filho não está te escutando naquele momento, dê-lhe um prazo.

Veja essa experiência, compartilhada por uma mãe: 
Eu acho essencial para evitar conflitos preparar a criança para o que vai acontecer. Estou sempre adiantando, para eles, tudo o que vai acontecer. Quando saímos, digo todos os lugares para onde vamos, para que não fiquem frustrados achando que depois do primeiro lugar iremos para casa. Na maioria das vezes, deixo para o final algo que eles gostam muito, como ir ao parquinho. Então eu aviso: vamos primeiro na farmácia, depois no verdureiro, depois comprar a ração da Lola e depois no parquinho. Assim eles se preparam e não se frustram.A mesma coisa quando temos que ir embora de algum lugar legal, eu vou avisando: daqui a pouco vamos embora, ok? Daqui a 5 minutos vamos embora, tá? E assim não há birra para ir embora. E, muitas vezes, combino tudo antes mesmo de chegar ao lugar legal: vamos ficar só um pouco, porque temos que ir para casa almoçar para ir à escola, então na hora de ir embora, iremos sem briga, combinado? Funciona muito bem. Muitas vezes a mais velha me olha quando digo que é hora de ir embora e repete: "Vamos sem briga, né mamãe?". Também sempre aviso que não iremos levar nenhum brinquedo dos primos ou amigos quando formos embora da casa deles, porque isso tinha virado mania uma época. Só iam embora levando um brinquedo emprestado. Então, agora, eu aviso que não iremos levar nada emprestado, e assim não rola estresse.No mercado é a mesma coisa: aviso que cada um vai poder escolher um item. Lojas de brinquedo, quando vamos comprar presentes, aviso que só vamos comprar presente para o amigo, que as outras coisas nós podemos olhar, mas não comprar. E eles ficam na boa, sem estresse. Na verdade, eles compreendem muito mais do que a gente imagina. Eu acho que antecipar as coisas é uma ferramenta incrível para evitar frustrações.
 Outra mãe compartilha como lida com birras decorrentes de super-estimulação: 
Meu filho tem 1 ano e 10 meses. Quando fica estressado ou nervoso, procuro pegá-lo e ir com ele para outro ambiente ou local, para se acalmar. Tento desviar a atenção, mostrar alguma coisa que ele se interesse. Quando ele fica mais calmo, aproveito para conversar sobre o que aconteceu.
 Uma coisa é importante ressaltar. Embora as birras possam ser desafiadoras, elas representam uma grande oportunidade para ajudar seu filho a desenvolver conexões essenciais no cérebro, que o ajudarão a lidar com o estresse no futuro (6).


6) Como não criar um ‘bully’

O risco de criar uma criança que irá praticar bullying mais tarde também depende muito do tipo de criação que ela recebe. Um estilo de criação autoritário, onde a criança é disciplinada em excesso, no sentido autoritário do termo, quando é sempre criticada e comandada, pode estar modificando seu sistema cerebral de resposta ao estresse. Isso pode fazer com que seus sistemas de raiva e medo fiquem hipersensibilizados. Esse tipo de criação autoritária também a ensina uma relação de submissão/dominação e, mais tarde, a criança assim criada pode inverter os papéis, passando de submissa para dominadora em outras relações na forma de bullying.

Esse risco é especialmente considerável quando as palmadas fazem parte de sua educação. Quando ela é constantemente criticada, comandada e ameaçada, a região de seu cérebro que é essencial para comandar o pensamento racional, o planejamento e a reflexão pode não se desenvolver adequadamente (5). Além disso, cria-se um círculo vicioso: essas crianças têm menor capacidade de tolerância e paciência e as pessoas costumam reagir mal a elas, o que reforça ainda mais seus comportamentos.

7) Vai doer mais nele que em você. Sempre.

Por que se bate em crianças e adolescentes?
Provavelmente, as famílias que usam de palmadas não se reconhecem cometendo violência, mas, sim, acreditam que a palmada é correção, educação e, portanto, demonstração de amor.
Porém, essa conexão entre agressão física e amor é perversa, inaceitável e perigosa.
Que tipo de relação estamos incentivando em nossos filhos associando violência a amor?
Quem bate em um filho dizendo que foi por amor está ensinando a ele que é perfeitamente possível apanhar e, ainda assim, amar. Ou bater e, ainda assim, amar. E – SIM! – esse pode ser um dos reforçadores da violência doméstica futura, ou da criação de laços amorosos doentios, baseados na violência.

Vamos além. Vamos discutir o famoso bordão “Meu filho, isso vai doer mais em mim do que em você”.
Essa mensagem confunde em muito a criança.
A verdade é: NÃO VAI NÃO!
Vai doer mesmo é na criança, é óbvio!
Se isso fosse verdade, pai nenhum bateria em filho, pois seria o mesmo que se autoflagelar. Essa frase aviltante é apenas uma desculpa que os pais usam para seus filhos em uma tentativa de justificar as palmadas.

Ainda que você acredite que palmada educa, é importante saber que a resposta que está produzindo na criança é, na verdade, a da CULPA. Ela se sente culpada pela própria agressão que sofreu! Isso pode gerar traumas psicológicos, mágoas, medo constante de ser agredido, humilhação, subjugação, insegurança, logo em quem é mais frágil: a criança.

Quantas crianças se encolhem ou recuam, colocando a mão sobre suas cabecinhas, como para se proteger, ainda que o pai ou a mãe estejam apenas tentando lhes afagar? Isso acontece com muita frequência entre crianças que apanham dos pais. Elas não sabem mais quando a mão estendida é para lhes acariciar ou para lhes dar um tapa. E não sabem por um único motivo: eles não entenderam o motivo pelo qual apanharam. E não entenderam porque não lhes foi efetivamente ensinado. Apenas entenderam que: podem apanhar a qualquer momento. Quem apanhou na infância pode se lembrar de diversos momentos como esse...

Lembre-se sempre que o que educa não são as palmadas.
É a preocupação com a vida dos filhos, a empatia, a demonstração de tolerância, o diálogo.
Tudo isso é o que demonstra amor e realmente educa.
Uma criança que vive em uma família cujo amor é expresso pela gentileza e não pela violência aprende que essas coisas são excludentes e que, portanto, é com gentileza que se deve tratar aquele a quem se ama, nunca com violência. Por isso se diz tanto que, para termos uma sociedade futura amorosa e não violenta, é preciso, HOJE, cuidar com amor e não violência de nossos pequenos.


8) De onde vem a agressividade? Como reconhecer sinais de descontrole?

Quem já viu um cérebro, seja em aulas de anatomia, seja em imagens de livros ou sites de ciência, sabe que ele possuiu uma aparência superficial composta por diversas dobras. Essa camada que vemos na superfície é chamada de neocórtex. Como o próprio nome diz, é um córtex cerebral “novo”, no sentido de “surgiu recentemente na evolução biológica”. Isso significa que não está presente em todos os animais. Essa camada surge apenas nos mamíferos – peixes não tem, anfíbios não tem, répteis também não, nem tão pouco as aves. Na maioria dos mamíferos, é uma região muito pouco desenvolvida, e é nos primatas que o neocortex se desenvolve mais. Principalmente nos primatas humanos. Eu, você, seu filho, todas as pessoas. Por que isso é importante? Simples: pela função dessa área cerebral.
O neocortex é um modulador fino do comportamento. Ele garante (ou deveria garantir...) nossa adequação comportamental em diferentes ambientes, integrando funções como o pensamento, a análise múltipla da situação, o estabelecimento de estratégias, a análise dos prós e contras de nossas ações, acionando memória, antecipando consequências, entre outras funções. E, mais importante para os fins aqui discutidos, ele regula e controla a expressão do cérebro primitivo, especialmente a expressão de uma estrutura cerebral chamada amígdala, responsável pelo comportamento agressivo.

Para os animais sem neocórtex, situações que envolvem medo, ameaça, aborrecimento, disparam comportamentos de ataque, luta, enfrentamento, ou fuga. Mas nós, humanos, teoricamente deveríamos ser capazes de modular nossa agressividade por meio da reflexão – afinal, nós temos neocórtex bem desenvolvido!

Quando nossos filhos fazem algo que está em desacordo com o que esperávamos, é natural, portanto, que tenhamos ímpetos de contrariedade. A vontade de agir vigorosamente, por vezes de maneira violenta (física ou emocionalmente falando) vem de nosso cérebro primitivo. Mas a capacidade de refletir, de ponderar, de analisar os fatos – nossos filhos são seres frágeis que precisam de nós, que precisam de nossa orientação e apoio afetuosos, não de violência – nos faz bloquear a expressão do comportamento agressivo primitivo, substituindo-o por comportamento HUMANO, de fato. Não somos “humanos” à toa. Nós temos maquinaria para nos humanizar...
Quando gritamos com nossos filhos, quando batemos neles, quando os agredimos verbalmente e os ofendemos, estamos dando vazão ao nosso lado primitivo e esquecendo o que nos caracteriza como seres humanos: a capacidade de integrar razão à emoção, de ligar neocórtex ao sistema límbico (que comanda as emoções).
Sempre se diz que animais como cachorros e gatos são, muitas vezes, mais afetuosos que alguns pais e mães. Isso não é uma bobagem. Cachorros e gatos também têm neocortex e, portanto, conseguem estabelecer relações afetivas moduladas. Por que, então, negar nossa capacidade de modular nosso estado agressivo?

Em resumo: bater em alguém, adulto ou criança, é nada mais que um sinal de inaptidão de controlar os próprios instintos agressivos. É um atestado de ineficiência. Todos podem aprender a lidar melhor com sua agressividade. Meios físicos para isso – regiões cerebrais -, pelo menos, não nos falta.

No entanto, diversas situações cotidianas são capazes de nos “tirar do sério”, de estimular nosso lado agressivo, primitivo. Um dia de muito trabalho, o acúmulo de problemas, a falta de dinheiro, o trânsito intenso, as muitas contas a vencer, a roupa pra lavar que não para de aumentar, a falta de sono, entre muitas outras situações comuns do cotidiano. Tudo isso é capaz de diminuir nossa tolerância, o que significa nos colocar em maior contato com nosso cérebro primitivo.
Nesse contexto, aparecem os tapas, as palmadas, os beliscões, os gritos e as ameaças, não somente porque nossos filhos assim estimularam, mas porque nós estávamos suscetíveis e vulneráveis. Identificar essas situações nos ajuda a ponderar nosso comportamento.

Se nos sabemos nervosos, irritados, cansados, isso deve nos ajudar a melhor interpretar o comportamento de nossos filhos. Eles não estão jogando as coisas, ou bagunçando, ou falando alto porque querem nos irritar. Eles estão agindo como crianças e precisam de orientação.

Ser sincero é sempre um bom caminho, pois mostra aos nossos filhos que somos como eles, não super heróis, e que temos maus dias. As crianças criadas com afeto são empáticas, conseguem se colocar no lugar dos outros, a dor do outro também dói em si. Um pai e uma mãe que diz: “Filho, mamãe está cansada, ou chateada, agora. Você pode ficar aqui comigo, sem fazer bagunça, e me dar um abraço?” torna-se muito mais próximo e produz um resultado muito melhor e duradouro do que aquele que desconta seu cansaço e chateação sobre quem não tem responsabilidade sobre isso, e que daria muito amor para ajuda-lo, se a ele fosse pedido.
Agir empaticamente, mostrar as fraquezas, mostrar-se humano, pedir um abraço, dizer que se está cansado, com doçura e afeto, aproxima pais e filhos, diminui a hostilidade e cria um clima de cooperação e entendimento.


9) Agressão psicológica é tão grave quanto a física

“Eu desisto de você”.
“Você não faz nada certo”.
“Você é mentiroso!”
“Ah, isso é coisa do fulano. Não se pode esperar nada dele”.
“Você não vai chegar a lugar algum”.
“Você é problemático!”
“Você é impossível!”
“Seu irmão faz, só você que não”

Essas são todas frases muito comuns em alguns círculos familiares e, também, em ambientes escolares. Comuns e muito mais frequentes do que pensamos. E, no entanto, representam ofensa, constrangimento e humilhação.

Se você não sabe, saiba agora: SÃO FORMAS DE VIOLÊNCIA. Capazes de deixar marcas profundas na criança e no adolescente. Marcas que podem alterar para sempre a imagem que eles têm deles mesmos, ou que estão construindo.

E o mais grave de tudo isso é que a maioria dos pais tem grande dificuldade em reconhecer que essas violências verbais também são formas de agredir um filho.

Criança que sofre esse tipo de violência passa a questionar seu valor, a se achar incapaz de ser amada. Ela não entende como aquela pessoa que mais deveria amá-la pode dizer aquelas coisas pra ela, ou ameaçá-la, ou tratá-la com desprezo, ou humilhá-la, ou privá-la de amor. Fica pensando "Por que? Por que?" sem que encontre a resposta. Às vezes, como resposta, convence-se de que é porque ela merece. E talvez cresça achando que merece ser tratada assim. E criança alguma merece crescer pensando isso... (7).

Por que algumas pessoas levam uma vida normal mesmo tendo sido submetidas à violência quando crianças, enquanto outros viram “delinquentes” ou desenvolvem problemas severos? Aí entra uma ideia ainda pouco discutida que é o conceito de resiliência.

Ser resiliente significa ter a habilidade de se adaptar, com êxito, a eventos estressantes, mesmo tendo sido um indivíduo exposto a fatores de risco. Em outras palavras, seria conseguir se recuperar de uma adversidade, se adaptar e ter uma vida significativa e produtiva "a despeito de".

Existem indivíduos mais resilientes, outros menos - ou nada - resilientes. Os primeiros são os "duro na queda”. Os segundos são os mais frágeis, os que adoecem (física ou mentalmente) ao menor estresse, que não têm uma estrutura emocional capaz de aguentar tanta adversidade.

Por que essa diferença? O que faz com que as pessoas sejam assim diferentes nesse aspecto? É, também, uma questão de desenvolvimento neurobiológico, entre tantos outros fatores.

E como saber se uma criança será mais resiliente ou menos resiliente? Como saber se ela se tornará um ativista contra a violência ou um reprodutor da violência, ainda que tenha sido submetida a ela? Não é possível uma resposta simples a essa pergunta.

Mas uma coisa é certa: AMBOS sofrerão com as lembranças da violência a que foram submetidos. Porque ser resiliente não afasta o sofrimento de saber que alguém te tratou mal, te machucou e te fez chorar até dormir (7). Ou seja: o sofrimento estará, de qualquer forma, presente.


10) Não tenha medo de quebrar o ciclo

Outra explicação para o fato de que os castigos físicos sobrevivam até hoje em alguns países é A CULTURA.
Nós reproduzimos a educação que recebemos e, como muitos dos adultos dos dias atuais apanharam quando criança, o ciclo de violência continua a ser reproduzido.

Veja uma explicação à luz da neurociência.
O cérebro que sofre violência muda. Alguns poucos se revoltam e passam a abominar a violência. Mas a maioria, agredida pelos pais em sua infância, passa a naturalizar a violência, que se torna aceitável.
Quando crianças, nosso cérebro não consegue vincular nada de negativo à própria mãe; a amígdala simplesmente não faz essa associação com a própria mãe. Como resultado disso, as crianças que apanham, apesar de terem medo da punição, não acham que a mãe é má ou está errada. E, assim, se torna um adulto que acha que apanhou "porque mereceu". Acha que dar palmadas é certo. Porque se achar errado, significa julgar como errada a ação de sua mãe. Assim, segue o exemplo recebido e passa, agora, a bater em seus próprios filhos, perpetuando o círculo vicioso.

Quebrar o ciclo não significa negar os próprios pais ou cuidadores, quando esses foram violentos. Significa compreender profundamente todos os contextos. E entender, verdadeiramente, que as experiências constroem quem nós somos, mas não determinam quem nós somos. Quando falamos sobre cérebros, nosso tom é de possibilidade, de contribuição, de participação da estrutura neurobiológica em um processo mais amplo. Nunca de determinação.
Nada nos determina.
Nada nos sujeita.
Assim deve ser.
Se fomos criados com violência, não precisamos passar isso para frente. Fazer isso seria reproduzir, sem questionamentos, sem reflexão, sem entendimento, comportamentos que nos fizeram sofrer. O passado passou. Vamos recomeçar.
Criar com amor nos ajuda, também, a ressignificar experiências anteriores.
Faz bem às gerações futuras. Aproxima as atuais. Concilia as gerações passadas.


11) Quando sobreviver não é o bastante...

Citando Dr. Gonzalez novamente: “As crianças necessitam tão desesperadamente do contacto e da atenção dos seus pais, que são mesmo capazes de aceitar os maus tratos como prova de carinho, à falta de melhor. Algumas crianças que não conseguem receber atenção salutar suficiente pelas vias normais chegam a procurar uma atenção patológica por vias anormais. Pensa que o seu filho pediria uma palmada se pudesse ou soubesse como pedir outra coisa, se fosse capaz (em casos mais graves) de conceber a existência de outra coisa? Também espero que algum dia os meus filhos sintam saudades minhas e me recordem com carinho. Espero que não seja por uma palmada ou um pontapé. E o leitor? Que recordação indelével gostaria de deixar?”

Muitas pessoas dizem que apanharam na infância e que, ainda assim, não são más pessoas. Vem daí o clássico: “APANHEI E SOBREVIVI”.

A verdade é que essas pessoas são boas pessoas NÃO PORQUE APANHARAM, mas porque muitas outras coisas boas lhe foram passadas, e isso sim fez a diferença.  
Se ainda mais coisas boas lhes tivessem sido passadas, no lugar da violência, imaginem quão melhores seriam! 
Afinal, ninguém quer que um filho SOBREVIVA. 
O que queremos é que eles vivam bem, vivam felizes, cresçam saudáveis.
Você, que apanhou e diz que sobreviveu, como se sente diante da possibilidade de ser melhor ainda do que se é sem ter experimentado dor?

Vale também reforçar que as crianças não são propriedade dos pais.
Elas estão sob sua responsabilidade, mas precisam ter sua integridade física respeitada.
O castigo físico em crianças é uma forma autoritária de exercer o poder. E, consequentemente, de ensinar às crianças que, em situações de poder, a violência pode ser uma ferramenta útil de controle.

E, então, estaremos, sem perceber, criando os tiranos do futuro. 
E isso é imensamente importante de ser ressaltado, já que algumas pessoas dizem que os tiranos surgem quando não apanham... Está mostrado, portanto, como isso não é verdadeiro. O tirano aprende a tirania pelo exemplo que teve.

Eduque seu filho de maneira a reconhecer sua dignidade. 
Esse é um grande presente para seu futuro em termos de saúde mental, inteligência emocional e social.
É um legado que você deixará.


Nosso sincero agradecimento às mães que contribuíram com relatos espontâneos sobre suas formas de maternar, com o objetivo de ajudar outras famílias e educadores e mostrar que a educação sem violência é totalmente possível.


Referências:

1- Sena, L.M. Educação sem violência. Porque bater não é educar...2013.http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/02/educacao-sem-violencia-porque-bater-nao.html
2- Hagerty MR. Testing Maslow’s hierarchy of needs: National quality-of-life across time. Social Indicators Research. 46: 249-271. 1999.
3- Gonzalez, C. Besame Mucho, Como criar seus filhos com amor. Coleção Pais Modernos. Editora Pergaminho, 2005.
4- Klein, T.M. Quase 10 anos – A história de uma educação sem palmadas. 2011.http://guiadobebe.uol.com.br/quase-10-anos-a-historia-de-uma-educacao-sem-palmadas/ 5- Shea A, Walsh C, Macmillan H, Steiner M. Child maltreatment and HPA axis dysregulation: relationship to major depressive disorder and post traumatic stress disorder in females.Psychoneuroendocrinology. Feb;30(2):162-78. Review. 2005.
6. Margot Sunderland, The science of parenting. DK Publishing Inc. 2006.
7 – Sena, L.M. Por que rimar amor e dor? 2010. http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2010/11/pra-que-rimar-amor-e-dor.html

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